What is Logotherapy and Existential Analysis?
The development of Logotherapy and Existential Analysis dates back to the 1930s. On the basis of Sigmund Freud's Psychoanalysis and Alfred Adler's Individual Psychology the psychiatrist and neurologist Viktor Emil Frankl (1905-1997) laid down the foundations of a new and original approach which he first published in 1938.
Logotherapy/Existential Analysis, sometimes called the "Third Viennese School of Psychotherapy", is an internationally acknowledged and empirically based meaning-centered approach to psychotherapy.
In Logotherapy/Existential Analysis (LTEA) the search for a meaning in life is identified as the primary motivational force in human beings.
Frankl's approach is based on three philosophical and psychological concepts:
Freedom of Will
Will to Meaning, and
Meaning in Life
¦ Freedom of Will
According to LTEA humans are not fully subject to conditions but are basically free to decide and capable of taking their stance towards internal (psychological) and external (biological and social) conditions. Freedom is here defined as the space of shaping one's own life within the limits of the given possibilities.
This freedom derives from the spiritual dimension of the person, which is understood as the essentially human realm, over and above the dimensions of body and of psyche. As spiritual persons, humans are not just reacting organisms but autonomous beings capable of actively shaping their lives.
The freedom of the human person plays an important role in psychotherapy, in that it provides clients with room for autonomous action even in the face of somatic or pschological illness. And it just that resource which enables clients, in the context of the techniques of Paradoxical Intention and Dereflection, to cope with their symptoms and to regain control and self-determination.
¦ Will to Meaning
Human beings are not only free, but most importantly they are free to something - namely, to achieve goals and puposes. The search for meaning is seen as the primary motivation of humans. When a person cannot realize his or her "Will to Meaning" in their lives they will experience an abysmal sensation of meaninglessness and emptiness.
The frustration of the existential need for meaningful goals will give rise to aggression, addiction, depression and suicidality, and it may engender or increase psychosomatic maladies and neurotic disorders.
Logotherapy/Existential Analysis assists clients in perceiving and removing those factors that hinder them in pursuing meaningful goals in their lives.
Clients are sensitized for the perception of meaning potentialities; however, they are not offered specific meanings. Rather, they are guided and assisted in the realization of those meaning possibilities they have detected themselves.
Meaning in Life
LTEA is based on the idea that meaning is an objective reality, as opposed to a mere illusion arising within the perceptional apparatus of the observer.
This is in contrast to the so-called "Occupational and Recreational Therapies" which are primarily concerned with diverting the clients' attention from disturbed or disturbing modes of experience.
According to LTEA humans are called upon, on the grounds of their freedom and responsibility, to bring forth the possible best in themselves and in the world, by perceiving and realizing the meaning of the moment in each and every situation.
In this context it must be stressed that these meaning potentials, although objective in nature, are linked to the specific situation and person, and are therefore continually changing.
Thus LTEA does not declare or offer some general meaning of life. Rather, clients are aided in achieving the openness and flexibility that will enable them to shape their day-to-day lives in a meaningful manner.
¦ Therapeutic techniques in LTEA (Selection)
Paradoxical Intention
Indications: mainly compulsive disorders and anxiety, also vegetative syndromes.
Guided by the physician or therapist, clients learn to overcome their obsessions or anxieties by self-distancing and humorous exaggeration, thus breaking the vicious circle of symptom and symptom amplification.
Dereflexion
Indications: Sexual disorders and sleeplessness, also anxiety disorders.
Instinctive, automatic processes are impeded and hindered by exaggerated self-observation.
By the same token, some mild and well-founded sensations of anxiousness or sadness will be increased and amplified by self-observation, making them more noticeable and engendering even more intense observation.
It is the purpose of dereflexion to break this neuroticizing circle by drawing the client's attention away from the symptom or the naturally flowing process.
Socratic dialogue / modification of attitudes
Certain attitudes and expectations may be obstacles to meaning fulfillment. They can alienate a person from the meaning potentialities in his or her life, thus accentuating neurotic disorders, or even producing them via repeated maldecisions and formation of behavior patterns.
It is important to note that the therapist or physician must refrain from imposing his or her own values or meaning perceptions. Rather, clients are guided to perceive their unrealistic and counterproductive attitudes and to develop a new outlook that may be a better basis for a fulfilled life.
Socratic dialogue is a conversational method frequently used by logotherapists.
Specific questions are aimed to raise into consciousness the possibility to find, and the freedom to fulfill, meaning in one's life. In the philosophical setting this technique of guiding by questioning was introduced by Socrates, who characterized it as a sort of "spiritual midwifery".
quinta-feira, 15 de abril de 2010
logo terapia
O trabalho da logoterapia consiste basicamente em ajudar as pessoas a encontrarem o sentido de suas vidas.
Podemos nos erguer das dificuldades, das enfermidades, do vício, da tristeza, do vazio e dos golpes do destino, se pudermos ver sentido em nossa existência.
A logoterapia ajuda as pessoas a dizerem sim à vida, quer seu sofrimento provenha de desajustamentos em suas relações humanas, problemas com o trabalho, doença, quer pela morte de um ente querido, quer por dificuldades auto-impostas como a hipocondria ou dependência de álcool e drogas.
A logoterapia ajuda, praticamente, através de seus métodos e teoria, a responder essas perguntas de ordem existencial. Afirma que somos indivíduos únicos, que atravessamos a vida numa série de situações únicas e que cada momento oferece um sentido para preencher - a oportunidade para agir significativamente.
Isto pode ser conseguido através do que fazemos, do que sentimos, e também através das atitudes que assumimos diante dos acontecimentos, mesmo os caóticos.
O sentido da vida consiste em realizar valores. E para realizá-los é preciso conhecê-los. A logoterapia afirma que o sentido da vida existe, de forma incondicional, e o que nós devemos fazer é descobrí-lo.
A logoterapia vê a vida como um quebra-cabeças com uma figura escondida - semelhante ao desenho de linhas confusas formando àrvores, núvens, flores, casas, com uma legenda que diz: "encontre a bicicleta neste desenho". Temos, então, que virar o desenho em várias direções até descobrir a bicicleta oculta na miscelânea de traços.
Da mesma maneira, devemos virar nossa vida em todas as direções até encontrar o sentido.
Psicoterapia Transpessoal
A psicoterapia transpessoal é uma forma de tratamento terapêutico vivencial, cujo objetivo é auxiliar a pessoa em tratamento a desenvolver cinco sentimentos básicos: auto-estima, auto-aceitação, autoconfiança, autovalorização e auto-respeito, que são fundamentais para uma vida plena e feliz.
Na Psicoterapia Transpessoal o indivíduo passa por um processo vivencial, num estado modificado de consciência, no qual ele próprio experiencia de forma global as suas emoções, percepções e cognição.
O estado natural de nossa mente é a ordem, isto é, a harmonia consigo mesma e com o meio-ambiente. Quando essa harmonia existe, a mente funciona como uma totalidade, o que resulta no que se chama de saúde mental.
Quando existem perturbações e desarmonia, a mente torna-se bloqueada, e apresenta aspectos traumáticos que podem resultar em vários distúrbios, tais como, ansiedade, depressão, angústia, fobias, stress, insegurança, impulso suicida, complexos de inferioridade, insônia, ciúme exagerado, instabilidade afetiva, sentimentos de rejeição, solidão, abandono, raiva, ódio, etc. Pode apresentar também distúrbios psicossomáticos e dificuldades no relacionamento interpessoal.
Vários são os métodos utilizados na prática da Psicoterapia Transpessoal, cujos objetivos são os de facilitar a pessoa a entrar em contato consigo mesmo em essência, desenvolvendo os recursos interiores com intuito de proporcionar a mobilização do seu potencial de autocura.
As técnicas terapêuticas transpessoais possibilitam ao indivíduo um auto-encontro amoroso, no qual se busca uma proposta madura de resolução dos conflitos através da transmutação das energias desarmonizadas, desenvolvendo-se o amor que se encontra presente de forma latente, em cada um de nós.
Com esse intuito utilizam-se técnicas de meditação, exercícios de relaxamento e visualização, regressão de memória a situações traumáticas vivenciadas no passado, dentre outras, de modo a proporcionar uma viagem profunda ao interior de si mesmo em busca de um estado de plenitude.
Fonte(s):
http://euvaldop.vilabol.uol.com.br/l.htm
http://www.psicologiatranspessoal.com.br…
Podemos nos erguer das dificuldades, das enfermidades, do vício, da tristeza, do vazio e dos golpes do destino, se pudermos ver sentido em nossa existência.
A logoterapia ajuda as pessoas a dizerem sim à vida, quer seu sofrimento provenha de desajustamentos em suas relações humanas, problemas com o trabalho, doença, quer pela morte de um ente querido, quer por dificuldades auto-impostas como a hipocondria ou dependência de álcool e drogas.
A logoterapia ajuda, praticamente, através de seus métodos e teoria, a responder essas perguntas de ordem existencial. Afirma que somos indivíduos únicos, que atravessamos a vida numa série de situações únicas e que cada momento oferece um sentido para preencher - a oportunidade para agir significativamente.
Isto pode ser conseguido através do que fazemos, do que sentimos, e também através das atitudes que assumimos diante dos acontecimentos, mesmo os caóticos.
O sentido da vida consiste em realizar valores. E para realizá-los é preciso conhecê-los. A logoterapia afirma que o sentido da vida existe, de forma incondicional, e o que nós devemos fazer é descobrí-lo.
A logoterapia vê a vida como um quebra-cabeças com uma figura escondida - semelhante ao desenho de linhas confusas formando àrvores, núvens, flores, casas, com uma legenda que diz: "encontre a bicicleta neste desenho". Temos, então, que virar o desenho em várias direções até descobrir a bicicleta oculta na miscelânea de traços.
Da mesma maneira, devemos virar nossa vida em todas as direções até encontrar o sentido.
Psicoterapia Transpessoal
A psicoterapia transpessoal é uma forma de tratamento terapêutico vivencial, cujo objetivo é auxiliar a pessoa em tratamento a desenvolver cinco sentimentos básicos: auto-estima, auto-aceitação, autoconfiança, autovalorização e auto-respeito, que são fundamentais para uma vida plena e feliz.
Na Psicoterapia Transpessoal o indivíduo passa por um processo vivencial, num estado modificado de consciência, no qual ele próprio experiencia de forma global as suas emoções, percepções e cognição.
O estado natural de nossa mente é a ordem, isto é, a harmonia consigo mesma e com o meio-ambiente. Quando essa harmonia existe, a mente funciona como uma totalidade, o que resulta no que se chama de saúde mental.
Quando existem perturbações e desarmonia, a mente torna-se bloqueada, e apresenta aspectos traumáticos que podem resultar em vários distúrbios, tais como, ansiedade, depressão, angústia, fobias, stress, insegurança, impulso suicida, complexos de inferioridade, insônia, ciúme exagerado, instabilidade afetiva, sentimentos de rejeição, solidão, abandono, raiva, ódio, etc. Pode apresentar também distúrbios psicossomáticos e dificuldades no relacionamento interpessoal.
Vários são os métodos utilizados na prática da Psicoterapia Transpessoal, cujos objetivos são os de facilitar a pessoa a entrar em contato consigo mesmo em essência, desenvolvendo os recursos interiores com intuito de proporcionar a mobilização do seu potencial de autocura.
As técnicas terapêuticas transpessoais possibilitam ao indivíduo um auto-encontro amoroso, no qual se busca uma proposta madura de resolução dos conflitos através da transmutação das energias desarmonizadas, desenvolvendo-se o amor que se encontra presente de forma latente, em cada um de nós.
Com esse intuito utilizam-se técnicas de meditação, exercícios de relaxamento e visualização, regressão de memória a situações traumáticas vivenciadas no passado, dentre outras, de modo a proporcionar uma viagem profunda ao interior de si mesmo em busca de um estado de plenitude.
Fonte(s):
http://euvaldop.vilabol.uol.com.br/l.htm
http://www.psicologiatranspessoal.com.br…
terça-feira, 13 de abril de 2010
sentimento
O
○
O sentimento do sentimento do que nos
SENTIMENTO
○
○
○
acontece: a consciência em Damásio
○
NOS
○
○
ACONTECE...
○
O mistério da consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de
si de António Damásio (trad. Laura T. Motta; revisão técnica Luiz H.M.
Castro). São Paulo: Companhia das Letras, 2000, 474 pp.
○
Resumo O texto a seguir apresenta em linhas gerais a concepção de consciência de António
Damásio desenvolvida em seu livro The Feeling of What Happens – body and emotion
in the making of consciouness. Nele, o autor, baseado em sua experiência como médico
e neurocientista, sugere que a consciência é um sentimento de si gerado pelo relato
○
não-verbal resultante da percepção concomitante das alterações orgânicas e do objeto
○
○
que as provoca.
Ao contrário do que poderia parecer para alguns precipitados, longe estamos do
○
○
fim da ciência, da arte, da história ou de qualquer outra atividade humana individual
○
○
ou social. Na ciência, em particular, questões cruciais permanecem em aberto, novas
○
○
descobertas e invenções podem a qualquer momento abalar nosso conhecimento
sedimentado e alguns temas continuam gerando acaloradas e polêmicas discussões.
Um desses temas ou questões que ainda não recebeu resposta adequada, e para
alguns nem estatuto científico, é a consciência. Como e por que ela surgiu? Qual
sua natureza ontológica? Quais suas propriedades? O que a sustenta? Cientistas
cognitivos, filósofos, neurofisiologistas seguem correndo contra o tempo, e uns con-
tra os outros, na busca de soluções consistentes para essa e outras perguntas.
Uma tentativa recente de enfrentar esse espinhoso e escorregadio campo pro-
blemático partiu de um dos mais respeitados e famosos neurocientistas da atuali-
dade, o português radicado nos Estados Unidos António Damásio. O mistério da
consciência, tradução brasileira do original inglês The feeling of what happens –
body and emotion in the making of consciousness, é um extraordinário esforço
○
por compreender o fenômeno da consciência a partir de estudos neuropsicológicos,
○
○
neurofisiológicos e neuroanatômicos. Nele, Damásio expõe com clareza e elegância
○
○
sua concepção pessoal do que é consciência, desenvolvida ao longo de anos de pes-
quisa experimental, curiosidade filosófica e tratamento de pacientes com os mais
variados tipos de dano neurológico.
Para começar, Damásio esclarece que há dois tipos distintos de problemas en-
○
○
volvendo a consciência. O primeiro investiga como o cérebro, no organismo huma-
○
no, é capaz de transformar um padrão neural (ou objeto) em um padrão mental (ou
imagem). Dito de outro modo, como surge a narrativa ou filme multi-sensorial que
○
○
caracteriza nossos estados mentais. Objeto, aqui, é a designação geral para coisas
○
○
tão variadas como um rosto, uma música, uma dor de barriga ou uma experiência
○
estética; imagem é um padrão mental em qualquer modalidade sensorial, como,
○
abril 2003
○
por exemplo, uma imagem sonora, uma imagem tátil, a imagem de um estado de
○
○
bem estar.
○
○
○
○
Da perspectiva da neurobiologia, resolver esse primeiro problema é descobrir como o cérebro
○
n. 5
produz padrões neurais em seus circuitos de células nervosas e como ele consegue converter esses
○
○
padrões neurais nos padrões mentais explícitos que constituem o nível mais elevado do fenômeno
○
biológico, o qual designo por imagens (p. 25).
○
○
galáxia
○
○
Para Damásio, responder a esse problema significa também enfrentar a ques-
○
tão filosófica dos qualia, as qualidades sensórias simples encontradas nos objetos,
○
○
294
O
○
e, para ele, ainda que um dia a neurobiologia possa explicá-los, neste momento a
SENTIMENTO
○
explicação que ela oferece ainda é incompleta e lacunar.
○
○
O segundo problema da consciência investiga como, concomitantemente ao
○
○
engendramento de padrões mentais (imagens) para um objeto, o cérebro também
○
faz emergir um sentido do self 1 no ato de conhecer. Como o corpo cria a sensação
○
DO
○
de um eu implicado em cada um de seus estados mentais. O que o autor está suge-
○
SENTIMENTO
○
rindo é que uma coisa é compreender como objetos se tornam imagens, e outra é
○
○
compreender como conhecemos que existe um self ao qual estas imagens estão
○
relacionadas. Usando a metáfora do filme no cérebro, podemos dizer que há um
○
○
conjunto de padrões neurais que cria uma sucessiva e quase ininterrupta narrativa
○
DO
○
sem palavras – desde a hora em que acordamos até o momento em que adormece-
○
QUE
○
mos, e também durante o sono REM no qual sonhamos – responsável pela sensação
○
de si mesmo que cada um tem à qual vem modificar todas as outras narrativas
○
NOS
○
representadas pelos objetos por nós percebidos. São filmes dentro do filme. Mesmo
○
ACONTECE...
○
que não tenhamos “consciência” do sentido do self implicado em cada uma das
○
imagens sensoriais percebidas e evocadas, ele está ali o tempo todo dizendo que
○
○
somos nós que estamos criando essas imagens e não outros.
○
○
○
○
Resolver o segundo problema da consciência consiste em descobrir os alicerces biológicos da
○
293-299
curiosa capacidade que nós, humanos, possuímos de construir não só os padrões mentais de um
○
○
objeto – as imagens de pessoas, lugares, melodias e de suas relações; em suma, as imagens mentais,
○
integradas no tempo e no espaço, de algo a ser conhecido –, mas também os padrões mentais que
○
○
transmitem, de maneira automática e natural, o sentido de um self no ato de conhecer (p. 27).
○
○
○
Em seguida, Damásio esclarece que a divisão da questão da consciência em dois
○
○
problemas responde a uma necessidade metodológica e que no fundo ambos estão
○
intimamente relacionados. Em suma, diz o autor, a consciência, de seus níveis ele-
○
galáxia
○
mentares aos mais complexos, é o padrão mental unificado que reúne o objeto e o
○
○
self, é um fenômeno que ocorre como parte do processo privado de primeira pes-
○
○
soa que denominamos mente.
○
O mistério da consciência tenta responder ao segundo problema da consciên-
○
○
n. 5
cia, o problema do self. Mesmo admitindo não tê-lo exatamente solucionado e acre-
○
○
ditando que no atual estágio da neurociência e da ciência cognitiva é ainda duvi-
○
○
abril 2003
○
○
1
Aqui cabe uma explicação. A tradução nacional evitou verter o vocábulo self e manteve-o como no
○
original em inglês por sugestão do próprio autor. Como explica nota do revisor da tradução, em
○
português (e nas línguas neolatinas) não existe uma palavra que traduza com exatidão o conceito
○
de self apresentado no livro.
○
295
293-299
dosa a idéia de resolvê-lo, Damásio passa então a descrever sua hipótese do que é a
○
○
consciência em termos mentais e como esta pode ser construída no cérebro huma-
○
○
no. Para tanto, recupera a distinção entre emoção e sentimento avançada em seu
○
○
livro anterior O erro de Descartes (Damásio 1996). Para o autor, a consciência é
BISPO
○
evolutivamente posterior e intimamente dependente dessas duas outras proprie-
○
○
dades do organismo humano. De modo inusitado e heterodoxo, Damásio recupera
○
RONALDO
○
a concepção desacreditada de William James e define emoção como o conjunto de
○
○
reações orgânicas, a maior parte delas publicamente observáveis, ou o conjunto
○
complexo de reações químicas e neurais em face da percepção de um objeto exter-
○
○
no ou interno. Emoções, portanto, são observáveis do ponto de visa de uma terceira
○
○
pessoa (expressão facial, ritmo dos movimentos do corpo) e são quantificáveis
○
(batimento cardíaco, sudorese, etc.). Paralelamente, sentimentos são resultados da
○
○
percepção dessa mudança na paisagem corporal e são acessíveis apenas na pers-
○
○
pectiva de primeira pessoa. Sentir uma emoção consiste em ter imagens mentais
○
○
originadas em padrões neurais representativos das mudanças no corpo e no cére-
○
bro que compõem uma emoção. A consciência surgiria como um sentimento do
○
○
sentimento. A seqüência então seria: um objeto é percebido pelo organismo, essa
○
○
percepção ativa circuitos cerebrais e esses estimulam mudanças no funcionamento
○
○
do corpo (emoção); essa ativação e essas mudanças são percebidas por outros cir-
○
cuitos cerebrais (sentimento); um padrão neuronal de segunda ordem tem lugar
○
○
reunindo a percepção do objeto percebido inicialmente e a percepção das mudan-
○
○
ças na paisagem corporal (consciência). A maior dificuldade enfrentada por Damásio
○
é provar que essas são, de fato, três propriedades distintas e não-coincidentes. Boa
○
○
parte do livro é dedicada a isso. Inúmeros exemplos de pacientes com danos cere-
○
○
brais demonstram a relativa independência desses três estágios da percepção cons-
○
○
ciente. Há aqueles que se emocionam, mas não sentem sua emoção; há outros que
○
se emocionam, sentem sua emoção, mas não sabem que o que estão sentindo está
○
abril 2003
○
relacionado ao seu self.
○
○
Detalhando mais minuciosamente os vários estágios que constituem o fenô-
○
○
meno da consciência humana, Damásio introduz uma série de novas propriedades.
○
A primeira é o proto-self. Damásio afirma que o sentido do self possui um prece-
○
○
n. 5
dente biológico pré-consciente. O proto-self seria um conjunto coerente de pa-
○
○
drões neurais que mapeiam, a cada momento, o estado da estrutura física do orga-
○
○
nismo nas suas numerosas dimensões. Não somos conscientes do proto-self. Um
○
galáxia
exemplo de proto-self poderia ser o padrão neural formado pelo funcionamento
○
○
sadio do fígado de um indivíduo. Em uma situação habitual, não temos consciência
○
○
da existência de nosso fígado e, no entanto, seu funcionamento está permanente-
○
296
O
○
mente sendo mapeado e enviado ao cérebro. É precisamente uma mudança signifi-
SENTIMENTO
○
cativa do estado do proto-self que faz surgir uma outra propriedade denominada
○
○
por Damásio de self central. Ele explica que a essência biológica do self central é a
○
○
representação, em um mapa de segunda ordem, do proto-self sendo modificado. O
○
self central é caracterizado ainda como o protagonista transitório da consciência
○
DO
○
gerado por qualquer objeto que acione o mecanismo da “consciência central”.
○
SENTIMENTO
○
Damásio fornece uma definição não muito distinta de “consciência central” e
○
○
freqüentemente somos levados a tomá-la como sinônimo de self central. A “cons-
○
ciência central” ocorre quando os mecanismos cerebrais de representação geram
○
○
um relato imagético, não-verbal, de como o estado do organismo é afetado pelo
○
DO
○
processamento de um objeto por esse mesmo organismo, e quando esse processo
○
QUE
○
realça a imagem do objeto causativo, destacando-o assim em um contexto espacial
○
e temporal.
○
NOS
○
○
ACONTECE...
○
A consciência central é gerada de modo pulsante, para cada conteúdo do qual devemos estar
○
○
conscientes. Ela é o conhecimento que se materializa quando alguém se vê diante de um objeto,
○
construindo um padrão neural para ele e descobrindo automaticamente que a imagem do objeto
○
○
agora realçada é formada de sua perspectiva, que lhe pertence (p. 167).
○
○
○
293-299
Voltando ao self central, Damásio esclarece que este pode ser acionado por
qualquer objeto, que o mecanismo de sua produção sofre mudanças mínimas no
decorrer de toda vida e que devido à permanente disponibilidade de objetos acio-
○
nadores ele é gerado continuamente, parecendo contínuo no tempo.
Em resumo:
arriscaríamos dizer que a “consciência central” seria a imagem mental e o self cen-
○
○
tral o padrão neural do conjunto resultante do processamento concomitante do
○
○
organismo e de um objeto realçado que o modifica em um determinado momento.
○
galáxia
O que é o mesmo que dizer que a percepção imagética do self central redunda na
○
○
“consciência central”. Um sentimento e um relato de segunda ordem, portanto.
○
○
As três outras novas propriedades que complementam o quadro da consciência
○
○
levantado pelo autor são: memória autobiográfica, self autobiográfico e consciên-
○
cia ampliada. A memória autobiográfica é constituída por memórias implícitas de
○
n. 5
○
múltiplos exemplos de experiência individual do passado vivido e do futuro antevisto
e tem como base os aspectos invariáveis da biografia de um indivíduo. Ela cresce
continuamente com a experiência de vida e pode ser parcialmente remodelada para
refletir novas experiências. Baseado na memória autobiográfica, o self autobiográ-
fico é organizado em registros permanentes, mas dispositivos de experiência do self
central. Esses registros dispositivos podem ser ativados como padrões neurais e
○
297
293-299
transformados em imagens explícitas sempre que necessário. O self autobiográfico
○
○
requer a presença de um self central para iniciar seu desenvolvimento gradual, as-
○
○
sim como requer o mecanismo da consciência central para a ativação de suas me-
○
○
mórias. Cada memória reativada opera como um “algo a ser conhecido” e gera seu
BISPO
○
próprio pulso de consciência central. O resultado é o self autobiográfico do qual
○
○
somos conscientes.
○
RONALDO
○
Finalmente, a consciência ampliada é caracterizada por Damásio como o está-
gio mais evoluído da experiência consciente. Ela vai além do aqui e agora da cons-
ciência central e nos dá a visão de conjunto da nossa vida individual e particular. A
consciência ampliada é resultado do conjunto de memórias registradas por cada
pulso de consciência central e exige uma memória operacional para reter por um
○
certo tempo as imagens recuperadas. Nela, o sentido do self surge na exibição con-
○
○
sistente e reiterada de algumas de nossas memórias pessoais, os objetos de nosso
○
○
passado pessoal, aqueles que podem facilmente dar substância a nossa identidade,
○
○
momento a momento.
○
A consciência é, assim, tanto em seu modo central como ampliado, um senti-
○
○
mento de algo a ser conhecido, um fenômeno mental sustentado por circuitos e
sistemas neurofisiológicos que garantem ao indivíduo um sentido do self complexo
e duradouro.
Curioso perceber que, segundo a concepção de Damásio, os mecanismos que
engendram a consciência são relativamente distintos e independentes dos meca-
nismos responsáveis pela construção de outras de nossas funções mentais superio-
res, tais como visão, audição, inteligência, memória, linguagem verbal. Pacientes
com danos neurológicos demonstram a capacidade que o corpo pode ter de conti-
○
○
nuar fazendo mapas coerentes de um objeto percebido externamente mesmo não
○
○
mais sendo capaz de criar um saber de que está vendo algo.
Damásio detalha ainda as estruturas e áreas cerebrais envolvidas em cada uma
abril 2003
das propriedades sugeridas, descreve inúmeras evidências para cada uma de suas
proposições, mas ainda assim sabe que se tratam apenas de hipóteses, que ainda
○
○
não é possível bater o martelo quanto a veracidade das mesmas. Mesmo não tendo
○
exatamente resolvido o problema da consciência, Damásio parece ter dado um pas-
○
○
n. 5
so importantíssimo nessa direção. Seu rigor científico, sua experiência profissional
○
○
colocam-no em patamar privilegiado para o desvendamento dessa problemática
○
○
complexa, na linha de frente representada pela neurofisiologia. Outros especialis-
○
galáxia
tas devem ser chamados a contribuir – filósofos, cientistas cognitivos, semioticistas
○
○
–, e dessa frente ampla podemos esperar melhores resultados.
○
○
Mais especificamente duas questões permanecem sem explicação. A primeira,
○
298
O
○
referida no início dessa resenha, é como exatamente um padrão neural é converti-
SENTIMENTO
○
do em um padrão mental? Como obtemos a qualidade que experimentamos em
○
○
nossas sensações? A outra, diretamente ligada a anterior e mais ainda às preocupa-
○
○
ções de Damásio, diz respeito à compreensão da natureza íntima dos sentimentos.
○
Que um sentimento seja a percepção de uma emoção pode parecer razoável, mas
○
DO
○
de que são feitos exatamente os sentimentos, da percepção precisa de que eles
○
SENTIMENTO
○
emergem? Quais os diferentes correlatos orgânicos para sentimentos tão próximos
○
○
quanto respeito, admiração ou reverência?
○
A consciência parece ser assim. De tão íntima, tão próxima, e também por ter-
○
○
mos que usá-la ao mesmo tempo como instrumento e objeto de conhecimento, sua
○
DO
○
explicação e compreensão surgem e desaparecem intermitentemente. Caso o leitor
○
QUE
○
termine o livro com a sensação de que não é capaz de reter por muito tempo a idéia
○
de consciência proposta pelo autor, não se preocupe, retome a argumentação, con-
○
NOS
○
centre-se em seus estados mentais e ela retornará – brevemente.
○
ACONTECE...
○
Finalmente, para aqueles que ainda estranham o comentário crítico sobre os
○
avanços em ciências cognitivas em geral no contexto de uma revista de comuni-
○
○
cação, semiótica e cultura, lembramos que é precisamente a consciência que nos
○
○
permite saber o que sentimos e o que conhecemos, e só através de sua compreen-
○
○
são, levada a cabo por aquelas ciências, poderemos nos comunicar cada vez mais
○
293-299
e melhor.
○
○
○
○
○
○
REFERÊNCIA
○
○
○
Damásio, António R. (1996). O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Com-
○
○
O sentimento do sentimento do que nos
SENTIMENTO
○
○
○
acontece: a consciência em Damásio
○
NOS
○
○
ACONTECE...
○
O mistério da consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de
si de António Damásio (trad. Laura T. Motta; revisão técnica Luiz H.M.
Castro). São Paulo: Companhia das Letras, 2000, 474 pp.
○
Resumo O texto a seguir apresenta em linhas gerais a concepção de consciência de António
Damásio desenvolvida em seu livro The Feeling of What Happens – body and emotion
in the making of consciouness. Nele, o autor, baseado em sua experiência como médico
e neurocientista, sugere que a consciência é um sentimento de si gerado pelo relato
○
não-verbal resultante da percepção concomitante das alterações orgânicas e do objeto
○
○
que as provoca.
Ao contrário do que poderia parecer para alguns precipitados, longe estamos do
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○
fim da ciência, da arte, da história ou de qualquer outra atividade humana individual
○
○
ou social. Na ciência, em particular, questões cruciais permanecem em aberto, novas
○
○
descobertas e invenções podem a qualquer momento abalar nosso conhecimento
sedimentado e alguns temas continuam gerando acaloradas e polêmicas discussões.
Um desses temas ou questões que ainda não recebeu resposta adequada, e para
alguns nem estatuto científico, é a consciência. Como e por que ela surgiu? Qual
sua natureza ontológica? Quais suas propriedades? O que a sustenta? Cientistas
cognitivos, filósofos, neurofisiologistas seguem correndo contra o tempo, e uns con-
tra os outros, na busca de soluções consistentes para essa e outras perguntas.
Uma tentativa recente de enfrentar esse espinhoso e escorregadio campo pro-
blemático partiu de um dos mais respeitados e famosos neurocientistas da atuali-
dade, o português radicado nos Estados Unidos António Damásio. O mistério da
consciência, tradução brasileira do original inglês The feeling of what happens –
body and emotion in the making of consciousness, é um extraordinário esforço
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por compreender o fenômeno da consciência a partir de estudos neuropsicológicos,
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neurofisiológicos e neuroanatômicos. Nele, Damásio expõe com clareza e elegância
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sua concepção pessoal do que é consciência, desenvolvida ao longo de anos de pes-
quisa experimental, curiosidade filosófica e tratamento de pacientes com os mais
variados tipos de dano neurológico.
Para começar, Damásio esclarece que há dois tipos distintos de problemas en-
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volvendo a consciência. O primeiro investiga como o cérebro, no organismo huma-
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no, é capaz de transformar um padrão neural (ou objeto) em um padrão mental (ou
imagem). Dito de outro modo, como surge a narrativa ou filme multi-sensorial que
○
○
caracteriza nossos estados mentais. Objeto, aqui, é a designação geral para coisas
○
○
tão variadas como um rosto, uma música, uma dor de barriga ou uma experiência
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estética; imagem é um padrão mental em qualquer modalidade sensorial, como,
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○
por exemplo, uma imagem sonora, uma imagem tátil, a imagem de um estado de
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bem estar.
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Da perspectiva da neurobiologia, resolver esse primeiro problema é descobrir como o cérebro
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n. 5
produz padrões neurais em seus circuitos de células nervosas e como ele consegue converter esses
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padrões neurais nos padrões mentais explícitos que constituem o nível mais elevado do fenômeno
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biológico, o qual designo por imagens (p. 25).
○
○
galáxia
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○
Para Damásio, responder a esse problema significa também enfrentar a ques-
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tão filosófica dos qualia, as qualidades sensórias simples encontradas nos objetos,
○
○
294
O
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e, para ele, ainda que um dia a neurobiologia possa explicá-los, neste momento a
SENTIMENTO
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explicação que ela oferece ainda é incompleta e lacunar.
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O segundo problema da consciência investiga como, concomitantemente ao
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engendramento de padrões mentais (imagens) para um objeto, o cérebro também
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faz emergir um sentido do self 1 no ato de conhecer. Como o corpo cria a sensação
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DO
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de um eu implicado em cada um de seus estados mentais. O que o autor está suge-
○
SENTIMENTO
○
rindo é que uma coisa é compreender como objetos se tornam imagens, e outra é
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○
compreender como conhecemos que existe um self ao qual estas imagens estão
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relacionadas. Usando a metáfora do filme no cérebro, podemos dizer que há um
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conjunto de padrões neurais que cria uma sucessiva e quase ininterrupta narrativa
○
DO
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sem palavras – desde a hora em que acordamos até o momento em que adormece-
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QUE
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mos, e também durante o sono REM no qual sonhamos – responsável pela sensação
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de si mesmo que cada um tem à qual vem modificar todas as outras narrativas
○
NOS
○
representadas pelos objetos por nós percebidos. São filmes dentro do filme. Mesmo
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ACONTECE...
○
que não tenhamos “consciência” do sentido do self implicado em cada uma das
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imagens sensoriais percebidas e evocadas, ele está ali o tempo todo dizendo que
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○
somos nós que estamos criando essas imagens e não outros.
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○
○
Resolver o segundo problema da consciência consiste em descobrir os alicerces biológicos da
○
293-299
curiosa capacidade que nós, humanos, possuímos de construir não só os padrões mentais de um
○
○
objeto – as imagens de pessoas, lugares, melodias e de suas relações; em suma, as imagens mentais,
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integradas no tempo e no espaço, de algo a ser conhecido –, mas também os padrões mentais que
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○
transmitem, de maneira automática e natural, o sentido de um self no ato de conhecer (p. 27).
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○
Em seguida, Damásio esclarece que a divisão da questão da consciência em dois
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problemas responde a uma necessidade metodológica e que no fundo ambos estão
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intimamente relacionados. Em suma, diz o autor, a consciência, de seus níveis ele-
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galáxia
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mentares aos mais complexos, é o padrão mental unificado que reúne o objeto e o
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○
self, é um fenômeno que ocorre como parte do processo privado de primeira pes-
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soa que denominamos mente.
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O mistério da consciência tenta responder ao segundo problema da consciên-
○
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n. 5
cia, o problema do self. Mesmo admitindo não tê-lo exatamente solucionado e acre-
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ditando que no atual estágio da neurociência e da ciência cognitiva é ainda duvi-
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○
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○
1
Aqui cabe uma explicação. A tradução nacional evitou verter o vocábulo self e manteve-o como no
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original em inglês por sugestão do próprio autor. Como explica nota do revisor da tradução, em
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português (e nas línguas neolatinas) não existe uma palavra que traduza com exatidão o conceito
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de self apresentado no livro.
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295
293-299
dosa a idéia de resolvê-lo, Damásio passa então a descrever sua hipótese do que é a
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○
consciência em termos mentais e como esta pode ser construída no cérebro huma-
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no. Para tanto, recupera a distinção entre emoção e sentimento avançada em seu
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livro anterior O erro de Descartes (Damásio 1996). Para o autor, a consciência é
BISPO
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evolutivamente posterior e intimamente dependente dessas duas outras proprie-
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dades do organismo humano. De modo inusitado e heterodoxo, Damásio recupera
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RONALDO
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a concepção desacreditada de William James e define emoção como o conjunto de
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reações orgânicas, a maior parte delas publicamente observáveis, ou o conjunto
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complexo de reações químicas e neurais em face da percepção de um objeto exter-
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no ou interno. Emoções, portanto, são observáveis do ponto de visa de uma terceira
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○
pessoa (expressão facial, ritmo dos movimentos do corpo) e são quantificáveis
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(batimento cardíaco, sudorese, etc.). Paralelamente, sentimentos são resultados da
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○
percepção dessa mudança na paisagem corporal e são acessíveis apenas na pers-
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pectiva de primeira pessoa. Sentir uma emoção consiste em ter imagens mentais
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originadas em padrões neurais representativos das mudanças no corpo e no cére-
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bro que compõem uma emoção. A consciência surgiria como um sentimento do
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○
sentimento. A seqüência então seria: um objeto é percebido pelo organismo, essa
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percepção ativa circuitos cerebrais e esses estimulam mudanças no funcionamento
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do corpo (emoção); essa ativação e essas mudanças são percebidas por outros cir-
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cuitos cerebrais (sentimento); um padrão neuronal de segunda ordem tem lugar
○
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reunindo a percepção do objeto percebido inicialmente e a percepção das mudan-
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ças na paisagem corporal (consciência). A maior dificuldade enfrentada por Damásio
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é provar que essas são, de fato, três propriedades distintas e não-coincidentes. Boa
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parte do livro é dedicada a isso. Inúmeros exemplos de pacientes com danos cere-
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brais demonstram a relativa independência desses três estágios da percepção cons-
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○
ciente. Há aqueles que se emocionam, mas não sentem sua emoção; há outros que
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se emocionam, sentem sua emoção, mas não sabem que o que estão sentindo está
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relacionado ao seu self.
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Detalhando mais minuciosamente os vários estágios que constituem o fenô-
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meno da consciência humana, Damásio introduz uma série de novas propriedades.
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A primeira é o proto-self. Damásio afirma que o sentido do self possui um prece-
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n. 5
dente biológico pré-consciente. O proto-self seria um conjunto coerente de pa-
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drões neurais que mapeiam, a cada momento, o estado da estrutura física do orga-
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○
nismo nas suas numerosas dimensões. Não somos conscientes do proto-self. Um
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galáxia
exemplo de proto-self poderia ser o padrão neural formado pelo funcionamento
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sadio do fígado de um indivíduo. Em uma situação habitual, não temos consciência
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○
da existência de nosso fígado e, no entanto, seu funcionamento está permanente-
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O
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mente sendo mapeado e enviado ao cérebro. É precisamente uma mudança signifi-
SENTIMENTO
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cativa do estado do proto-self que faz surgir uma outra propriedade denominada
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○
por Damásio de self central. Ele explica que a essência biológica do self central é a
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○
representação, em um mapa de segunda ordem, do proto-self sendo modificado. O
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self central é caracterizado ainda como o protagonista transitório da consciência
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DO
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gerado por qualquer objeto que acione o mecanismo da “consciência central”.
○
SENTIMENTO
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Damásio fornece uma definição não muito distinta de “consciência central” e
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○
freqüentemente somos levados a tomá-la como sinônimo de self central. A “cons-
○
ciência central” ocorre quando os mecanismos cerebrais de representação geram
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○
um relato imagético, não-verbal, de como o estado do organismo é afetado pelo
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DO
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processamento de um objeto por esse mesmo organismo, e quando esse processo
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QUE
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realça a imagem do objeto causativo, destacando-o assim em um contexto espacial
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e temporal.
○
NOS
○
○
ACONTECE...
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A consciência central é gerada de modo pulsante, para cada conteúdo do qual devemos estar
○
○
conscientes. Ela é o conhecimento que se materializa quando alguém se vê diante de um objeto,
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construindo um padrão neural para ele e descobrindo automaticamente que a imagem do objeto
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agora realçada é formada de sua perspectiva, que lhe pertence (p. 167).
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○
○
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Voltando ao self central, Damásio esclarece que este pode ser acionado por
qualquer objeto, que o mecanismo de sua produção sofre mudanças mínimas no
decorrer de toda vida e que devido à permanente disponibilidade de objetos acio-
○
nadores ele é gerado continuamente, parecendo contínuo no tempo.
Em resumo:
arriscaríamos dizer que a “consciência central” seria a imagem mental e o self cen-
○
○
tral o padrão neural do conjunto resultante do processamento concomitante do
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organismo e de um objeto realçado que o modifica em um determinado momento.
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galáxia
O que é o mesmo que dizer que a percepção imagética do self central redunda na
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“consciência central”. Um sentimento e um relato de segunda ordem, portanto.
○
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As três outras novas propriedades que complementam o quadro da consciência
○
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levantado pelo autor são: memória autobiográfica, self autobiográfico e consciên-
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cia ampliada. A memória autobiográfica é constituída por memórias implícitas de
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n. 5
○
múltiplos exemplos de experiência individual do passado vivido e do futuro antevisto
e tem como base os aspectos invariáveis da biografia de um indivíduo. Ela cresce
continuamente com a experiência de vida e pode ser parcialmente remodelada para
refletir novas experiências. Baseado na memória autobiográfica, o self autobiográ-
fico é organizado em registros permanentes, mas dispositivos de experiência do self
central. Esses registros dispositivos podem ser ativados como padrões neurais e
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transformados em imagens explícitas sempre que necessário. O self autobiográfico
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○
requer a presença de um self central para iniciar seu desenvolvimento gradual, as-
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sim como requer o mecanismo da consciência central para a ativação de suas me-
○
○
mórias. Cada memória reativada opera como um “algo a ser conhecido” e gera seu
BISPO
○
próprio pulso de consciência central. O resultado é o self autobiográfico do qual
○
○
somos conscientes.
○
RONALDO
○
Finalmente, a consciência ampliada é caracterizada por Damásio como o está-
gio mais evoluído da experiência consciente. Ela vai além do aqui e agora da cons-
ciência central e nos dá a visão de conjunto da nossa vida individual e particular. A
consciência ampliada é resultado do conjunto de memórias registradas por cada
pulso de consciência central e exige uma memória operacional para reter por um
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certo tempo as imagens recuperadas. Nela, o sentido do self surge na exibição con-
○
○
sistente e reiterada de algumas de nossas memórias pessoais, os objetos de nosso
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passado pessoal, aqueles que podem facilmente dar substância a nossa identidade,
○
○
momento a momento.
○
A consciência é, assim, tanto em seu modo central como ampliado, um senti-
○
○
mento de algo a ser conhecido, um fenômeno mental sustentado por circuitos e
sistemas neurofisiológicos que garantem ao indivíduo um sentido do self complexo
e duradouro.
Curioso perceber que, segundo a concepção de Damásio, os mecanismos que
engendram a consciência são relativamente distintos e independentes dos meca-
nismos responsáveis pela construção de outras de nossas funções mentais superio-
res, tais como visão, audição, inteligência, memória, linguagem verbal. Pacientes
com danos neurológicos demonstram a capacidade que o corpo pode ter de conti-
○
○
nuar fazendo mapas coerentes de um objeto percebido externamente mesmo não
○
○
mais sendo capaz de criar um saber de que está vendo algo.
Damásio detalha ainda as estruturas e áreas cerebrais envolvidas em cada uma
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das propriedades sugeridas, descreve inúmeras evidências para cada uma de suas
proposições, mas ainda assim sabe que se tratam apenas de hipóteses, que ainda
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○
não é possível bater o martelo quanto a veracidade das mesmas. Mesmo não tendo
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exatamente resolvido o problema da consciência, Damásio parece ter dado um pas-
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n. 5
so importantíssimo nessa direção. Seu rigor científico, sua experiência profissional
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colocam-no em patamar privilegiado para o desvendamento dessa problemática
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complexa, na linha de frente representada pela neurofisiologia. Outros especialis-
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galáxia
tas devem ser chamados a contribuir – filósofos, cientistas cognitivos, semioticistas
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–, e dessa frente ampla podemos esperar melhores resultados.
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Mais especificamente duas questões permanecem sem explicação. A primeira,
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O
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referida no início dessa resenha, é como exatamente um padrão neural é converti-
SENTIMENTO
○
do em um padrão mental? Como obtemos a qualidade que experimentamos em
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nossas sensações? A outra, diretamente ligada a anterior e mais ainda às preocupa-
○
○
ções de Damásio, diz respeito à compreensão da natureza íntima dos sentimentos.
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Que um sentimento seja a percepção de uma emoção pode parecer razoável, mas
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DO
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de que são feitos exatamente os sentimentos, da percepção precisa de que eles
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SENTIMENTO
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emergem? Quais os diferentes correlatos orgânicos para sentimentos tão próximos
○
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quanto respeito, admiração ou reverência?
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A consciência parece ser assim. De tão íntima, tão próxima, e também por ter-
○
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mos que usá-la ao mesmo tempo como instrumento e objeto de conhecimento, sua
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DO
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explicação e compreensão surgem e desaparecem intermitentemente. Caso o leitor
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QUE
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termine o livro com a sensação de que não é capaz de reter por muito tempo a idéia
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de consciência proposta pelo autor, não se preocupe, retome a argumentação, con-
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NOS
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centre-se em seus estados mentais e ela retornará – brevemente.
○
ACONTECE...
○
Finalmente, para aqueles que ainda estranham o comentário crítico sobre os
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avanços em ciências cognitivas em geral no contexto de uma revista de comuni-
○
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cação, semiótica e cultura, lembramos que é precisamente a consciência que nos
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permite saber o que sentimos e o que conhecemos, e só através de sua compreen-
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são, levada a cabo por aquelas ciências, poderemos nos comunicar cada vez mais
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e melhor.
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REFERÊNCIA
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Damásio, António R. (1996). O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Com-
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Emoções,sentimentos e decição
ALCANCES E LIMITES DA NEUROBIOLOGIA DAS EMOÇÕES E DOS SENTIMENTOS. Lima, Orion Ferreira. Mestre em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UNESP - campus de Marília. orionferreira@yahoo.com.br
Resumo
Neste artigo nos propomos analisar, à luz do pensamento de Damásio, os alcances e limites da neurobiologia das emoções e dos sentimentos. Inicialmente discutiremos em que medida as emoções influenciam nossas decisões racionais.
Em organismos complexos a tomada de decisões, diante de situações também complexas, exige áreas evoluídas do cérebro, como por exemplo, o neocortex.
Contudo, áreas “antigas” do cérebro, como o sistema límbico, são também importantes na tomada de decisões. Não obstante a toda maquinaria cerebral, cabe-nos questionar se seriam os processos biológicos, condição necessária e suficiente para se entender a experiência de uma emoção e de um sentimento.
Tais questões nos conduzem inevitavelmente ao problema da consciência. A idéia do corpo como sustentáculo do eu nos levarão a um paradigma representacional diferente do modelo clássico de representação.
Tentaremos mostrar que os esforços atuais das neurociências em descobrir os mecanismos neurais envolvidos na constituição da experiência de se ter emoções e sentimentos proporcionaram à indústria farmacêutica uma corrida em busca de substâncias capazes de minimizar a dor e, conseguintemente aumentar o prazer.
Contudo, essas descobertas não nos permitiram explicar como temos a experiência dos sentimentos e das emoções em nossa vida.
Introdução
O presente artigo tem por finalidade discutir questões relativas à neurobiologia das emoções e dos sentimentos. Inicialmente nos propomos analisar em que medida as emoções influenciam a tomada de decisões racionais.
Em organismos complexos a tomada de decisões ante a situações também complexas exigem áreas “modernas” e mais evoluídas do cérebro, o neocortex. Contudo, não há uma sobreposição de áreas “modernas” sobre áreas “antigas” do cérebro. Ambas são importantes na tomada de decisão.
Nesse contexto, Damásio diferencia as emoções primárias das secundárias. As primeiras podem ser entendidas como sinônimo de “inatas” ou pré-organizadas e se articulam por meio de uma rede intricada do sistema límbico. As emoções secundárias, por sua vez, necessitam não somente do sistema límbico, mas também de outras estruturas mais evoluídas como o córtex pré-frontal, o sistema endócrino e peptídeo.
Não obstante a toda essa maquinaria neural, cabe-nos questionar se seriam os processos biológicos, condição necessária e suficiente para se entender a experiência de uma emoção. Ao falarmos de “experiência de emoções” referimo-nos inevitavelmente ao problema da consciência.
O filósofo David Chalmers (secção 2), postula dois tipos de problemas sobre a consciência: o problema fácil, e o problema difícil. O primeiro pode ser explicado por mecanismos computacionais ou neurais, como por exemplo, a habilidade para discriminar, categorizar, reagir a estímulos; comportamento estes que podem ser facilmente simulados em uma máquina.
O segundo problema é mais difícil, pois situa-se em torno da experiência qualitativa sentida pelo sujeito. A grande questão envolvida nesse problema é saber por que quando nosso sistema visual ou auditivo se empenha em um processamento informacional, nós temos concomitantemente a experiência auditiva ou visual. Não obstante a todos os recursos disponíveis não somos capazes de dar uma resposta satisfatória a essa questão. Por outro lado, o fato de não conseguirmos obter uma solução ao “hard problem” não anula nossas esperanças de um dia poder encontrá-la.
A idéia do corpo como sustentáculo do eu nos conduzirão a um paradigma representacional diferente do modelo clássico que concebe a existência de um homúnculo no cérebro que recebe sinais das mais variadas estruturas do corpo. Na secção 3, demonstraremos que a concepção de mapeamento proposta por Damásio acontece de maneira dinâmica, isto é, se renova constantemente, de modo que podemos ter um acesso “on-line”do que está acontecendo no organismo a cada momento que ocorre uma emoção.
Na tentativa de descobrir quais os mecanismos neurais envolvidos na constituição dos sentimentos e das emoções, que a indústria farmacêutica empenha todos seus esforços no sentido de encontrar drogas capazes de minimizar a dor e aumentar o prazer. Contudo, a descoberta de tais substâncias não nos permite explicar o que sentimos e como sentimos. Uma coisa é sabermos que certos tipos de substâncias podem provocar determinados tipos de sentimentos e emoções e outra bem diferente é conhecer os mecanismos pelos quais se consegue alterar essas mesmas emoções e sentimentos.
1 Neurobiologia das emoções e dos sentimentos
Muitos dos organismos possuem em seu repertório biológico seleções de respostas inconscientes. Mesmo entre organismos simples destituídos de um sistema nervoso plenamente desenvolvido, essas seleções lhes garantem sobreviver em meio aos perigos e a manter um equilíbrio satisfatório a fim de preservar a própria vida.
No entender de Damásio (1996), essas seleções equivalem a uma elementar tomada de decisão, que se manifesta por meio de correlações neurais. Em organismos complexos, a tomada de decisão ante as situações também complexas, necessita de áreas “modernas” do cérebro (no sentido evolutivo), assim denominadas neocórtex. Assim, haverá uma correlação entre as divisões e complexificações do neocórtex e a complexidade e imprevisibilidade do meio no qual os organismos vivos estão situados.
Segundo Damásio (1996, p. 156), as descobertas de John Allman revelaram que:
[...] independente do tamanho do corpo, o neocórtex dos macacos que se alimentavam de frutos é maior que o daqueles que se alimentavam de folhas. Os macacos que se alimentam de frutos tem de possuir uma memória mais rica para que possam recordar quando e onde procurar frutas comestíveis, para que não encontrem árvores sem frutos ou com fruta estragada. Seus neocórtices maiores sustem a maior capacidade de memória fatual de que necessitam.
Diante desses fatos, poderíamos falar que há alguma discrepância entre as estruturas cerebrais velhas e modernas?
Damásio acredita que as estruturas velhas são encarregadas de regular os degraus subterrâneos de nossa mente, enquanto que o “novo cérebro” disporia com sensatez todas as nossas decisões. “Em cima, no neocórtex, encontrar-se-ia a razão e a força de vontade, enquanto que embaixo, no subcórtex, se encontraria as emoções e todas aquelas coisas fracas e carnais.” (DAMÁSIO, 1996, p. 157).
Mas será que as emoções não interferem na tomada de decisões de modo afetar a manutenção da vida em organismos complexos? Damásio (1996) afirma que em muitos casos isso seja possível, por exemplo, não podemos desprezar o conselho de nossos pais e avós que sempre nos dizem, “quando tiver que resolver um problema, faça-o de cabeça fresca”, ou seja, livre dos assaltos emocionais. Contudo, há situações em que as emoções são essenciais para uma tomada de decisão eficaz.
Muitos estudos indicam que o segredo da longevidade não está somente na existência de estruturas biológicas responsáveis pelo raciocínio e desenvolvimento, mas também em outras estruturas subjacentes como as do hipotálamo que, como sabemos, situa-se na parte inferior do cérebro.
Além do mais, alguns comportamentos dependem tanto do “antigo cérebro” como do “novo cérebro”, combinando assim estruturas e funções diferenciadas. Desse modo, as emoções e os sentimentos desempenham um papel relevante na tomada de nossas decisões racionais. Uma pessoa destituída desses elementos não pode decidir-se satisfatoriamente.
Em sua importante obra, “Principles of Psychology”, publicada no início do século XX, James afirma:
É-me muito difícil, se não mesmo impossível, pensar que espécie de emoção de medo restaria se não se verificasse a sensação de aceleração do ritmo cardíaco, de respiração suspensa, de tremor dos lábios e de pernas enfraquecidas, de pele arrepiada e de aperto no estomago. Poderá alguém imaginar o estado de raiva e não ver de perto em ebulição, o rosto congestionado, as narinas dilatadas, os dentes cerrados e o impulso para ação vigorosa, mas, ao contrário, músculos flácidos, respiração calma e um rosto pálido? (JAMES, W., 1905 apud DAMÁSIO, 1996, p.159).
Com essa citação, James nos chama à atenção para a idéia de que há um mecanismo básico em que determinados estímulos do meio acionam reações específicas do corpo.
Não obstante, na concepção de Damásio, em muitos momentos da vida do homem, como ser social, deflagram-se as emoções após um processo mental de avaliação não automática, mas sim voluntária, ou seja, há um amplo espectro de estímulos que se associam aos estímulos inatamente selecionados.
Essas reações são avaliadas e o que tudo indica segundo Damásio, algumas emoções possuem características pré-organizadas (as emoções experimentadas na infância do choro, dos gritos, etc, são exemplos disso) Por outro lado, existem “emoções secundárias” que se caracterizam por serem construídas interpostas às “emoções primárias”, de modo a serem vivenciadas na fase adulta.
Vejamos com atenção o que Damásio quer nos dizer com o termo “emoções primárias”
Em termos gerais, as “emoções primárias” envolvem disposições inatas para responder a certa classe de estímulos. Por exemplo: somos como que inatamente “pré-programados” a sentir medo de animais de grande porte, ou a determinado tipo de movimento, como por exemplo, das cobras e de outros répteis.
Essas características seriam processadas pelo sistema límbico (amígdala). A emoção correspondente ao medo resulta da ativação de núcleos neurais no límbico, capaz de representar dispositivamente o estado do corpo. Não é necessário o reconhecimento de um animal específico ante os olhos, mas apenas a sutileza de suas características, de maneira que os córtices sensoriais iniciais fazem uma classificação representando no corpo o sinal de perigo.
Em organismos evoluídos esse sistema garante uma coerência entre o estímulo que deflagrou a emoção e seu impacto no organismo, ou seja, a sensação de uma emoção.
De fato que não haveria necessidade do organismo, no ato de interagir com o objeto causador da emoção, se conhecer nesse processo relacional, uma vez que há maneiras automáticas e adaptativas de responder a esses estímulos. Contudo, com a emergência de uma consciência, os organismos vivos alcançaram mecanismos seguros de sobrevivência.
Com efeito, nos afirma Damásio (1996, p. 161):
[...] se vier, a saber, que o animal ou situação X causa medo, você tem duas formas de se comportar em a X. A primeira é inata, você não a controla; além disso, não é especifica de X: pode ser causada por um grande número, de seres, objetos e circunstâncias. A segunda forma baseia-se na sua própria experiência e é especifica de X. O conhecimento de X permite-lhe pensar com antecipação e prever a probabilidade de sua presença num dado meio ambiente, de modo a conseguir evitar X antecipadamente, em vez de ter de reagir a sua presença numa emergência.
Ao utilizar a terminologia “sentir os estados emocionais”, Damásio se refere à consciência das emoções. Essa permite com que as respostas, baseadas na história de cada indivíduo ao interagir com o meio, sejam versáteis.
Qual seria a base neural na qual repousariam as “emoções primárias?”
De acordo com Damásio (1996), as emoções primárias, entendidas aqui como sinônimo de inatas, pré-organizadas, se articulam em uma rede intrigada do sistema límbico, onde a amigdala e o cíngulo assumem papéis significativos.
Muitas foram às pesquisas empíricas envolvendo a influência da amigdala nos processos emocionais. Damásio nos afirma que os trabalhos de Heinrich Kluver e Paul Bucyl (1973) já demonstravam que pacientes submetidos à lobotomia temporal apresentavam embotamento afetivo significativo, além de outros transtornos emocionais, logo após a intervenção cirúrgica.
Em 1932, Breckner, um famoso neurologista da Columbia University desenvolveu um trabalho interessante onde se relacionava o córtex frontal com as emoções.
O doente A, por ele denominado, apresentou um quadro clínico de tumor cerebral, mais precisamente um meninginoma. O tumor crescia e comprimia os lobos frontais. Breckner retirou o tumor com sucesso, porém, juntamente com o tumor, retirou-se também boa parte dos lobos frontais esquerdo e direito. No lado direito retirou-se todo o córtex que se localizava em frente das áreas responsáveis pelo movimento. Os córtices na superfície ventral (orbital) e na parte inferior da superfície (mediana) também foram removidos.
Após a cirurgia, o paciente A gozava de boa saúde. A relação espaço-temporal permaneceu íntegra assim como a memória convencional. No âmbito da linguagem não houve alteração. Na esfera racional, o paciente era capaz de fazer cálculos e até mesmo jogar xadrez com muita habilidade. Qual o problema com o paciente A?
O problema estava na vida afetiva. Certo sinal de embotamento se evidenciava sempre que ele propunha se relacionar com outras pessoas. Não havia nenhum sentimento de empatia pelo outro, nem ao menos um sinal de vergonha, tristeza ou angústia diante de tudo aquilo que lhe havia acontecido. Em suma, o que ficou comprometido em nosso paciente A foi sua capacidade de decidir por meio de ações mais vantajosas.
Como podemos perceber as “emoções primárias” por si só não são capazes de explorar a complexidade dos processes e comportamentos emocionais. Com efeito, nos afirma Damásio (1996, p. 163):
Creio, no entanto, que em termos do desenvolvimento de um indivíduo seguem-se mecanismos de emoções secundárias que ocorrem mal começamos a ter sentimentos e formam ligações sistemáticas entre categorias de objetos e situados, por um lado, e, emoções primárias por outro. (Grifo do autor).
As “emoções secundárias”, por outro lado, necessitam não somente do sistema límbico, mas também de outras estruturas anatômica e fisiologicamente mais evoluídas. Essas estruturas são necessárias à produção de “emoções secundárias.” Considere a seguinte situação:
Você está no aeroporto à espera do seu vôo e de repente encontra um amigo que há muito tempo não via. Partindo do princípio de que você é uma pessoa normal, obviamente você sentirá emoções: taquicardia inesperada, talvez vontade de chorar, ou um “aperto” no estômago, uma alegria indizível, suas mãos poderão ficar frias e úmidas, entre outras manifestações físicas e psicológicas. A questão é: o que acontece, em termos neurobiológicos, quando se experimenta essa emoção? E mais, o que significa “experienciar uma emoção?”.
Como dissemos anteriormente, no momento da experiência da emoção, o organismo se vê em um estado de mudança, tanto em termos biológicos quanto psicológicos. O organismo como um todo se empenha em buscar, de uma maneira rápida e segura, um equilíbrio funcional, ou em outras palavras, uma homeostase.
Em se tratando de nosso exemplo, o processo inicia-se com considerações deliberadas em relação a esta pessoa em particular: afinidades com a pessoa, valor que ela representa etc. Muitas dessas considerações acontecem em um nível imagético, não-verbal, enquanto outras podem assumir um conteúdo verbal: as palavras, o timbre de voz, lembranças de discursos, acontecimentos. A base neural de todo esse substrato representável ocorre em córtices sensoriais iniciais (visual, auditivo, olfativo).
Em nível inconsciente, redes presentes no córtex pré-frontal reagem como que automaticamente a todos os sinais resultantes dos processos imagéticos descritos. Esta resposta pré-frontal só é possível graças à existência de representações dispositivas adquiridas e não inatas, isto é, aquilo que no decorrer da história de vida de cada um foi-se acumulando e formando, de modo a construir a individualidade.
Damásio (1996) acredita que a resposta das disposições pré-frontais (inconsciente e automática) tem como base neural a amígdala e o cíngulo. Estas por sua vez, ativam os núcleos do sistema nervoso autônomo, enviando sinais ao “sistema inato”, de modo a alterar significativamente a musculatura esquelética.
O sistema endócrino e peptídeo são ativados, alterando o estado do organismo por meio de uma série de ações químicas. Por final, há uma ativação dos núcleos dos neurotransmissores não específicos, situados no tronco cerebral e prosencéfalo basal, que liberam “informações químicas” em regiões do telencéfalo (gânglio basal e córtex cerebral).
Como podemos observar, as mudanças ocorridas nas mais diversas estruturas biológicas produzem certo tipo de “estado emocional do corpo”. Por outro lado, a ativação dos núcleos dos neurotransmissores não específicos parece não provocar uma reação no corpo, propriamente dita, mas num determinado grupo de estruturas do tronco cerebral, responsável pela regulação do corpo. Nas palavras de Damásio (1996, p. 167): “Tem um impacto muito importante no estilo e eficiência dos processos cognitivos e constitui uma via paralela para a resposta emocional.”
Contudo, resta-nos ainda tentar responder a seguinte questão: Seriam os processos biológicos, condição necessária e suficiente para se entender a “experiência de uma emoção” ou de “sentir uma emoção”?
É bem verdade que o aspecto relativo à conservação não depende necessariamente da consciência, pois como vimos há seres unicelulares que lutam por se manterem na existência e, contudo, possuem uma estrutura neurobiológica rudimentar, mas sabemos também que o surgimento de um cérebro evoluído e conseqüentemente de uma consciência permitiu às espécies uma maior vantagem no processo de seleção natural.
Vimos também que a diferença entre emoções primárias e secundárias é que nas primeiras as mudanças biológicas ocorrem em um nível inconsciente, ao passo que as secundárias caracterizam-se pela constatação de um sentimento.
Desse modo, nos parece que o conceito de emoção, precisamente as “emoções secundárias”, encontra-se relacionado ao conceito de consciência, uma vez que, para Damásio (1996, p. 168) “existem outras alterações do estado do corpo que só são perceptíveis pelo dono desse corpo.”
2 Além da simples sensação corporal
Para o filósofo David Chalmers (1995) “There is no just one problem of consciousness. “consciousness” is an ambiguous term[...]”1
Para Chalmers (1995), argumenta que há dois tipos de problemas quando falamos sobre consciência: o problema fácil e o problema difícil. O primeiro pode ser explicado por mecanismos computacionais ou neurais. Por exemplo: a habilidade para discriminar, categorizar e reagir a estímulos do meio-ambiente; a habilidade de um sistema para acessar seus próprios estados internos, etc. Todos esses problemas, na concepção de Chalmers, podem ser descritos e explicados por meio de recursos computacionais ou neurais. Por outro lado, o problema difícil da consciência se refere justamente ao problema da experiência consciente.
No processo de pensar e perceber alguma coisa há mecanismos de processamento de informação neurofísicos e neuroquímicos envolvidos, mas há também um aspecto subjetivo. Por exemplo: ao olharmos para uma rosa vermelha acontece uma série de mudanças processuais e informacionais em nosso organismo que podem ser explicadas a nível físico. Mas há, além disso, também a experiência do vermelho que é sentida pelo indivíduo. Com efeito, nos afirma Chalmers (1995, p. 3)
When we see, for exemple, we experience visual sensation: the felt quality of redness, the experience of dark and light, the quality of depth in a visual field. Other experiences go along with perception in difference modalities: the sound of a clarinet, the smell of mothballs. Then there are bodily sensations, from pains to orgasms, mental images that are conjured up internally; the felt quality of emotion, and the experience of a stream of conscious thought. What unites all of these states is that there is something it is like to be in them. All of them are states of experience. 2
Toda nossa discussão situa-se em torno da experiência qualitativa sentida pelo sujeito. Na perspectiva de Chalmers, o grande problema é descobrir porque que quando o nosso sistema visual ou auditivo se empenha em um processamento informacional nós temos concomitantemente a experiência auditiva ou visual. Apesar de todos os recursos oferecidos hoje pelas neurociências não somos capazes de dar uma resposta satisfatória a esta questão.
Consideremos a seguinte experiência de pensamento sugerida pelo filósofo Frank Jackson:
Mary é uma neurocientista do século XXIII e é uma especialista renomada em processos cerebrais responsáveis pela visão da cor. Ela conhece tudo sobre cor: os processos psicofísicos relacionados à cor, ela também sabe como o cérebro discrimina os estímulos, bem como integra a informação. Conhece tudo sobre a cor, o conjunto de ondas no espectro da luz entre muitas outras coisas. Não obstante, Mary passou toda sua vida trancada em uma sala branca e preta, sem jamais ver cor alguma. Mary nunca vivenciou ou experimentou, por exemplo, o vermelho.
Ao que nos parece, existem fatos sobre a experiência consciente que não podem ser explicados somente à luz de interações neurais. Estaria, então, toda nossa indústria, fadada ao fracasso? Nas palavras de Chalmers, não: “Notavelmente, a experiência subjetiva parece emergir de um processo físico, mas não temos nenhuma idéia de como ou por que é assim.” (CHALMERS, [2003], p.43).
O fato de não termos ainda encontrado uma resposta satisfatória ao “hard problem”, não anula em hipótese alguma nossa esperança em encontrar uma explicação científica.
Como já dissemos, a consciência contribuiu de maneira significativa à perpetuação e conservação da vida, uma vez que possibilitou ao homem construir um conjunto de regras e normas com o objetivo de alcançar, o máximo possível, o equilíbrio.
Com efeito, nos afirma Penrose (1989, p. 412 apud ECCLES, 1994, p. 66):
O que é que faz verdadeiramente a consciência? ... Que podemos fazer graças ao pensamento consciente que não pode ser feito inconscientemente?... De certa maneira, temos a necessidade da consciência a fim de tratarmos de situações em que temos de formar novos juízos, em que as regras não foram estabelecidas à partida. É muito difícil ser exato quando a distinção entre os tipos de atividade mental que aparecem requerer a consciência e os que não a requerem.
A capacidade da mente em formular juízos constitui, na visão de Penrose, a marca essencial da consciência, ou seja, a capacidade de diferenciar o verdadeiro do falso, contemplar e distinguir a beleza da fealdade.
3 O corpo como substrato da consciência
A idéia do corpo como sustentáculo do eu deve guiar mais uma vez nossa discussão. Seguindo os passos de Damásio conseguimos formular o conceito do que seja uma emoção, isto é, a combinação de todo um processo de avaliação mental. Para ele, esse processo pode ser:
[...] simples ou complexo, com respostas dispositivas a esse processe, em sua maioria dirigida ao corpo propriamente dito, resultando num estado emocional do corpo, mas também dirigida ao próprio cérebro (núcleos de neurotransmissores no tronco cerebral, resultando em alterações mentais adicionais) (DAMÁSIO, 1996, p.169).
A capacidade de reconhecer essas alterações “mentais adicionais” constitui o pano de fundo das emoções. No momento em que vivenciamos algum tipo de emoção nosso corpo sofre alterações que são ora percebidas por um observador externo (por exemplo o rubor de nossa pele, contrações da musculatura facial, o olhar de pânico, entre outros), ora sentida por nós mesmos, por exemplo às contrações gastrintestinais e taquicardia. Independentemente do tipo de alteração que soframos, o cérebro sinaliza todas essas modificações por meio da existência de nervos periféricos que carregam impulsos elétricos pela pele. As estruturas límbicas e os córtices somatossensoriais situados nas regiões insular e parietal são responsáveis por obter uma imagem do que acontece com o organismo durante uma emoção.
Diferentemente do modelo representacional clássico que concebe a existência de um homúnculo no cérebro que recebe sinais das mais variadas estruturas do corpo, a concepção de mapeamento proposta por Damásio acontece dinamicamente, isto é, se renova constantemente, de modo a ser possível, utilizando uma metáfora computacional, termos um acesso on-line do que está acontecendo no organismo a cada momento que ocorre uma emoção. Há também alterações complexas de natureza bioquímica envolvidas no processo de sentir uma emoção, contudo, este não é objeto de nosso presente trabalho.
Muitas dessas alterações corporais são sentidas ou vivenciadas como pertencentes ao nosso organismo. A experiência das alterações corporais associadas a conteúdos cognitivos específicos é o que Damásio denomina sentimento. De acordo com Damásio:
Se uma emoção é um conjunto de alterações no estado do corpo associada a certas imagens mentais que ativaram um sistema cerebral especifico, a essência do sentir de uma emoção é a experiência dessas alterações em justaposição com as imagines mentais que iniciaram o ciclo. (DAMÁSIO, 1996, p.175).
Damásio acredita que para surgir um sentimento é necessária uma justaposição de uma imagem do corpo com a imagem de alguma coisa. O que Damásio quer nos dizer com o conceito de justaposição?
Para Damásio (1996), a imagem do corpo propriamente dita emerge após a imagem dessa “alguma coisa”. Em termos neurais, essas imagens se mantêm separadas, não no sentido cartesiano de se opor duas substâncias, de um lado a corporal e do outro a mental, mas de uma combinação. Com efeito, nos afirma Damásio (1996, p. 177):
A idéia de que o “qualificado” (um rosto) e o “qualificador” (o estado corporal justaposto) se combinam, mas não se misturam ajuda a explicar porque é possível sentirmo-nos deprimidos quando pensamos em pessoas ou situações que de modo algum significam tristeza ou perda, ou nos sentimos animados sem razão alguma imediata que a explique.
Há também outro aspecto importante a ser sinalizado. Apesar de existir uma série de componentes essenciais dos sentimentos, em temos cognitivos e neurais, o problema de saber como sentimos um sentimento permanece em aberto.
Acreditamos que as correlações entre o estado do corpo e as mais diversas regiões cerebrais são importantes, porém, não explicam como de fato sentimos o sentimento, mas nos apontam um caminho. Segundo Damásio (1996, p. 178): “A recepção de um conjunto amplo de sinais sobre o estado do corpo nas zonas cerebrais apropriadas é o começo necessário, mas não suficiente para os sentimentos serem sentidos.”
Este talvez seja o “Hard Problem” dos sentimentos. Para Damásio (1996) sabemos que um sentimento em relação a um determinado objeto funda-se numa subjetividade da percepção do objeto e do estado corporal produzido pelo objeto bem como as alterações em nível do pensamento durante todo o processo. Como podemos perceber, nos é tentador separar de um lado a subjetividade e do outro as manifestações corporais. Este é com certeza o ranço metafísico deixado por Descartes ao pensamento ocidental. Nossa tentativa é de diluir ou enfraquecer o máximo possível essa idéia.
O sentimento emerge do corpo e é neste que ele se situa. A justaposição de uma imagem do corpo associada a “algo mais” constitui o sentimento, não como uma “união substancial”, mas como combinação entre elementos cujas bases são comuns a ambos, ou seja, o próprio corpo.
Ao pensarmos na idéia de corpo, isto é, em emoções e sentimentos, somos levados quase que inevitavelmente a retomar uma antiga questão que desde os tempos de Willian James incomodava as neurociências: Fugimos porque sentimos medo ou sentimos medo porque fugimos?
Na concepção de James são as reações fisiológicas que produzem sentimentos. Se tomarmos como exemplo as emoções envolvidas durante a ação de fuga, perceberemos que algumas reações fisiológicas são observáveis por outros enquanto que outras são sentidas somente pelo sujeito que vivencia aquela situação: aumento da pressão sangüínea, taquicardia, midríase, contrações musculares e gastrintestinais. As respostas fisiológicas retornam ao cérebro por meio de uma sensação física, a fim de que um padrão único de feedback sensorial permita com que cada tipo de emoção tenha uma qualidade específica. Para melhor compreender a idéia das reações fisiológicas que provocam sentimentos, Damásio irá cunhar uma subespécie de sensações, a saber, o conceito de “sentimento de fundo.”
Damásio (1996) acredita que as emoções de fundo originam-se em estados corporais de “fundo” e não em estados emocionais. Ela é a imagem do corpo quando este se encontra em repouso, isto é, quando não está agitado pelas emoções.
As sensações de fundo acontecem de maneira contínua, embora não possamos perceber a cada momento o que ocorre em nosso corpo. Não obstante, é por meio dessas sensações que somos capazes de respondemos a questão: “como se sente”? Damásio nos lembra que este tipo de pergunta não se refere apenas ao modo como estamos levando a vida, nossas atividades diárias, etc. Ao darmos uma resposta fazemos menção ao nosso próprio estado corporal. Por exemplo, como nos comportaríamos se de repente, ao dirigirmos essa pergunta a uma pessoa, ela nada soubesse sobre como se sente?
Alguns doentes acometidos por anosognosia prototípica perderam por completo a noção de seu estado de saúde. Pelo fato de desconhecerem suas atuais debilidades, negam que estejam doentes. Com efeito, nos afirma Damásio (1996, p. 184):
Não reconhecem que estão paralisados, mesmo quando percebem que não mexem os ombros, por exemplo, ao serem confrontados com a realidade e obrigados a ver a imobilidade da mão e do braço esquerdo [...] Suas manifestações emocionais são limitadas ou inexistentes os sentimentos – por sua própria verificação ou por interferência de um observador - são igualmente nulas.
Pacientes anosognósicos com comprometimento cerebral, seja por uma lesão ou por ter um tumor, apresentam falhas de intercomunicação entre regiões responsáveis pelo mapeamento do corpo. Os estudos, incluindo as pesquisas por Damásio e sua equipe, confirmaram que a maioria dessas regiões situa-se no hemisfério direito, não excluindo o esquerdo. Algumas regiões mantêm um vínculo muito estreito de comunicação e se localizam na ínsula, no lobo parietal e na substância branca. Além do mais, encontramos ligações significativas entre tálamo, córtex frontal e gânglios basais.
Para Damásio (1996), doentes com anosognosia apreendem de modo insuficiente as informações relativas ao seu estado corporal, ou seja, não há uma atualização das próprias representações corporais.
Sendo assim, para essas pessoas a capacidade de reconhecimento imediato e automático dos estados corporais fica comprometida. Embora sejam capazes de formar uma imagem de como eram seus corpos, essa imagem agora se apresenta desatualizada. Essa é a justificativa que eles utilizam para dizer que estão saudáveis, não obstante os sinais visíveis da doença.
Pesquisas envolvendo pacientes anosognósicos nos apontam um caminho interessante no que se refere aos estados mentais. Ao que tudo indica, eles nos apresentam a idéia de uma mente privada da possibilidade de situar-se no presente do seu estado corporal. Damásio (1996) levanta a hipótese de um “eu desintegrado”, ou seja, apesar do conhecimento da identidade pessoal estar preservada e isso pode se notar por intermédio de suas afirmações: “eu sei quem sou e onde estou”, se perguntasse as elas como se sentem após uma delicada cirurgia dirão que não estão doentes, mas que se sentem muito bem. Nas palavras de Damásio, pode-se observar o quão desatualizado se encontram as informações: “A teoria que esses doentes criaram acerca de suas mentes e das mentes dos outros encontra-se em estado deplorável, irrevogavelmente desatualizada e defasada da época histórica em que eles e seus observadores se encontram.” (DAMÁSIO, 1996, p.185). Embora o meio em que vivemos se apresente em constante mudança bem como as imagens que dele temos, nossa identidade pessoal se caracteriza por assumir uma regularidade em meio à irregularidade. Desse modo, a continuidade dos sentimentos de fundo se refere à própria continuidade do organismo vivo, uma vez que esses sentimentos fazem menção ao próprio estado corporal do organismo.
4 As drogas da felicidade
Pelo que podemos observar até o presente momento, tanto as emoções quanto os sentimentos, incluindo também os sentimentos de fundo, encontram-se alicerçados na idéia que temos de organismo vivo. Assim, duas questões se colocam contundentemente à nossa investigação: quais seriam os processos neurais envolvidos no “sentir” de um estado emocional ou de uma sensação de fundo? Seriam os processos neurais, condição necessária e suficiente para se sentir uma emoção ou um sentimento de fundo?
Muitas respostas foram aventadas no sentido de uma busca “desenfreada” por encontrar substâncias neuroquímicas capazes de explicar as emoções (as indústrias de psicofármacos que o digam). Contudo, a descoberta de tais substâncias que alteram comportamentos emocionais não é suficientemente capaz de explicar o que sentimos. Uma coisa é sabermos que certos tipos de substâncias químicas podem provocar determinados tipos de sentimentos ou emoções e outra bem diferente é conhecer os mecanismos pelos quais se consegue alterar as emoções ou os sentimentos.
Em outras palavras, podemos saber que há substâncias que atuam em determinados neurônios, circuitos e receptores, porém toda essa “maquinaria neural” não nos possibilita responder a questão do porque nos sentimos tristes ou alegres. Para Damásio (1996), o máximo que conseguimos fazer é estabelecer uma relação de causa e efeito entre substâncias e sensações, mas não podemos explicar qualitativamente como se dá a passagem de um nível a outro.
Não estamos tentando ressuscitar a idéia de um homúnculo que represente no “teatro cartesiano” da mente essa passagem. Acreditamos que além de uma explicação causal há elementos cognitivos indispensáveis na compreensão da emergência de um sentimento. Esses elementos cognitivos também requerem a presença de substâncias químicas, uma vez que essas estruturas não são etéreas ou diáfanas, mas não se reduzem as explicações neuroquímicas. Um exemplo clássico que podemos tomar é o caso da depressão. Em quadros depressivos algumas funções cognitivas e afetivas ficam comprometidas, porém não podemos por essa razão explicar esta situação somente a partir de uma diminuição de serotonina ou dopamina ou qualquer outro neurotransmissor.
Outra “tentação” que muitos neurocientistas caem é de tentar explicar o sentimento somente a partir do dado biológico. Não nos é suficiente explicar quais são os neurotransmissores envolvidos no processo de sentir. Precisamos compreender de que modo às representações corporais se tornam subjetivas.
Na concepção de Damásio (1996), para podermos ter algum tipo de sentimento em relação a uma pessoa ou acontecimento, o cérebro precisa encontrar um meio de representar causalmente a pessoa ou o acontecimento ao estado do corpo de modo coerente.
Entre os sinais do corpo e o objeto causativo da emoção existem zonas de convergência que recebem sinais da atividade cerebral que assinala uma determinada entidade, de maneira a mapear tanto os córtices sensoriais iniciais quanto da atividade cerebral que assinala as alterações corporais. Para Damásio (1996), as zonas de convergência são capazes de receber sinais desses dois lugares, graças às ligações neurais de feedforward . “Essa representação intermediária preserva a ordem de início da atividade cerebral e, além disso, mantém a atividade e atenção por meio de conexões de feedback dirigidas para os dois locais iniciais.” (DAMÁSIO, 1996, p.193).
Há um verdadeiro equilíbrio na troca de sinais entre essas três estruturas, de forma que o organismo consegue sentir-se no processo da emoção.
Embora haja estruturas corticais envolvidas neste processo, não podemos deixar de mencionar a relação entre estruturas subcorticais, de modo especial as do tálamo. Não obstante a toda essa explicação, os conteúdos emocionais, ou em uma linguagem chalmersiana, a sensação da experiência está intrinsecamente relacionada à consciência.
Sendo assim, acreditamos que se faz necessário compreendermos mais a fundo os mecanismos subjacentes a cada um dos elementos.
De acordo com Pereira (2003, p. 116):
Embora uma seção sobre emoções estivesse presente em muitas coletâneas de estudos neurocientificos desde os anos sessenta , sua abordagem quase sempre se resumia a identificação das áreas cerebrais e mecanismos bioquímicos envolvidos. Uma adequada conceptualização dos fenômenos envolvidos é tarefa difícil, e a compreensão das correlações entre base neural de emoção e sua fenomenologia ainda é uma área incipiente na neurociência afetiva e áreas afins (como a neuropsicofarmacologia e a psiquiatria biológica).
Como podemos observar as emoções e os sentimentos não devem ser vistos como entidades metafísicas ou desencarnadas do corpo, mas requerem um estudo aprofundado dos mecanismos biológicos envolvidos, bem como uma análise séria de sua fenomenologia, vista aqui não como substância imaterial ou etérea, mas como entidades relacionadas ao organismo vivo.
Referências
CHALMERS, D. J. Facing Up to the Problem of Consciousness. Journal of Consciousness Studies, Australia, v.2, n. 3, p. 200-19, 1995.
______. O enigma da consciência. Scientific Amerícan, Edição Especial: segredos da mente n. 4, [2004].
DAMÁSIO, A. O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia da Letras, 1996.
______. O Mistério da Consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si. Tradução de Lauro Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
______. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. Adaptação para o português do Brasil Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2004a.
ECCLES, C J. Cérebro e Consciência: o self e o cérebro. Tradução de Ana André. Lisboa: Instituto Piaget, 1994.
PEREIRA, JR., A. Uma abordagem naturalista da consciência humana. Trans-form-ação, São Paulo: UNESP, v. 26, n. 2, p. 109-141, ano 2005.
Resumo
Neste artigo nos propomos analisar, à luz do pensamento de Damásio, os alcances e limites da neurobiologia das emoções e dos sentimentos. Inicialmente discutiremos em que medida as emoções influenciam nossas decisões racionais.
Em organismos complexos a tomada de decisões, diante de situações também complexas, exige áreas evoluídas do cérebro, como por exemplo, o neocortex.
Contudo, áreas “antigas” do cérebro, como o sistema límbico, são também importantes na tomada de decisões. Não obstante a toda maquinaria cerebral, cabe-nos questionar se seriam os processos biológicos, condição necessária e suficiente para se entender a experiência de uma emoção e de um sentimento.
Tais questões nos conduzem inevitavelmente ao problema da consciência. A idéia do corpo como sustentáculo do eu nos levarão a um paradigma representacional diferente do modelo clássico de representação.
Tentaremos mostrar que os esforços atuais das neurociências em descobrir os mecanismos neurais envolvidos na constituição da experiência de se ter emoções e sentimentos proporcionaram à indústria farmacêutica uma corrida em busca de substâncias capazes de minimizar a dor e, conseguintemente aumentar o prazer.
Contudo, essas descobertas não nos permitiram explicar como temos a experiência dos sentimentos e das emoções em nossa vida.
Introdução
O presente artigo tem por finalidade discutir questões relativas à neurobiologia das emoções e dos sentimentos. Inicialmente nos propomos analisar em que medida as emoções influenciam a tomada de decisões racionais.
Em organismos complexos a tomada de decisões ante a situações também complexas exigem áreas “modernas” e mais evoluídas do cérebro, o neocortex. Contudo, não há uma sobreposição de áreas “modernas” sobre áreas “antigas” do cérebro. Ambas são importantes na tomada de decisão.
Nesse contexto, Damásio diferencia as emoções primárias das secundárias. As primeiras podem ser entendidas como sinônimo de “inatas” ou pré-organizadas e se articulam por meio de uma rede intricada do sistema límbico. As emoções secundárias, por sua vez, necessitam não somente do sistema límbico, mas também de outras estruturas mais evoluídas como o córtex pré-frontal, o sistema endócrino e peptídeo.
Não obstante a toda essa maquinaria neural, cabe-nos questionar se seriam os processos biológicos, condição necessária e suficiente para se entender a experiência de uma emoção. Ao falarmos de “experiência de emoções” referimo-nos inevitavelmente ao problema da consciência.
O filósofo David Chalmers (secção 2), postula dois tipos de problemas sobre a consciência: o problema fácil, e o problema difícil. O primeiro pode ser explicado por mecanismos computacionais ou neurais, como por exemplo, a habilidade para discriminar, categorizar, reagir a estímulos; comportamento estes que podem ser facilmente simulados em uma máquina.
O segundo problema é mais difícil, pois situa-se em torno da experiência qualitativa sentida pelo sujeito. A grande questão envolvida nesse problema é saber por que quando nosso sistema visual ou auditivo se empenha em um processamento informacional, nós temos concomitantemente a experiência auditiva ou visual. Não obstante a todos os recursos disponíveis não somos capazes de dar uma resposta satisfatória a essa questão. Por outro lado, o fato de não conseguirmos obter uma solução ao “hard problem” não anula nossas esperanças de um dia poder encontrá-la.
A idéia do corpo como sustentáculo do eu nos conduzirão a um paradigma representacional diferente do modelo clássico que concebe a existência de um homúnculo no cérebro que recebe sinais das mais variadas estruturas do corpo. Na secção 3, demonstraremos que a concepção de mapeamento proposta por Damásio acontece de maneira dinâmica, isto é, se renova constantemente, de modo que podemos ter um acesso “on-line”do que está acontecendo no organismo a cada momento que ocorre uma emoção.
Na tentativa de descobrir quais os mecanismos neurais envolvidos na constituição dos sentimentos e das emoções, que a indústria farmacêutica empenha todos seus esforços no sentido de encontrar drogas capazes de minimizar a dor e aumentar o prazer. Contudo, a descoberta de tais substâncias não nos permite explicar o que sentimos e como sentimos. Uma coisa é sabermos que certos tipos de substâncias podem provocar determinados tipos de sentimentos e emoções e outra bem diferente é conhecer os mecanismos pelos quais se consegue alterar essas mesmas emoções e sentimentos.
1 Neurobiologia das emoções e dos sentimentos
Muitos dos organismos possuem em seu repertório biológico seleções de respostas inconscientes. Mesmo entre organismos simples destituídos de um sistema nervoso plenamente desenvolvido, essas seleções lhes garantem sobreviver em meio aos perigos e a manter um equilíbrio satisfatório a fim de preservar a própria vida.
No entender de Damásio (1996), essas seleções equivalem a uma elementar tomada de decisão, que se manifesta por meio de correlações neurais. Em organismos complexos, a tomada de decisão ante as situações também complexas, necessita de áreas “modernas” do cérebro (no sentido evolutivo), assim denominadas neocórtex. Assim, haverá uma correlação entre as divisões e complexificações do neocórtex e a complexidade e imprevisibilidade do meio no qual os organismos vivos estão situados.
Segundo Damásio (1996, p. 156), as descobertas de John Allman revelaram que:
[...] independente do tamanho do corpo, o neocórtex dos macacos que se alimentavam de frutos é maior que o daqueles que se alimentavam de folhas. Os macacos que se alimentam de frutos tem de possuir uma memória mais rica para que possam recordar quando e onde procurar frutas comestíveis, para que não encontrem árvores sem frutos ou com fruta estragada. Seus neocórtices maiores sustem a maior capacidade de memória fatual de que necessitam.
Diante desses fatos, poderíamos falar que há alguma discrepância entre as estruturas cerebrais velhas e modernas?
Damásio acredita que as estruturas velhas são encarregadas de regular os degraus subterrâneos de nossa mente, enquanto que o “novo cérebro” disporia com sensatez todas as nossas decisões. “Em cima, no neocórtex, encontrar-se-ia a razão e a força de vontade, enquanto que embaixo, no subcórtex, se encontraria as emoções e todas aquelas coisas fracas e carnais.” (DAMÁSIO, 1996, p. 157).
Mas será que as emoções não interferem na tomada de decisões de modo afetar a manutenção da vida em organismos complexos? Damásio (1996) afirma que em muitos casos isso seja possível, por exemplo, não podemos desprezar o conselho de nossos pais e avós que sempre nos dizem, “quando tiver que resolver um problema, faça-o de cabeça fresca”, ou seja, livre dos assaltos emocionais. Contudo, há situações em que as emoções são essenciais para uma tomada de decisão eficaz.
Muitos estudos indicam que o segredo da longevidade não está somente na existência de estruturas biológicas responsáveis pelo raciocínio e desenvolvimento, mas também em outras estruturas subjacentes como as do hipotálamo que, como sabemos, situa-se na parte inferior do cérebro.
Além do mais, alguns comportamentos dependem tanto do “antigo cérebro” como do “novo cérebro”, combinando assim estruturas e funções diferenciadas. Desse modo, as emoções e os sentimentos desempenham um papel relevante na tomada de nossas decisões racionais. Uma pessoa destituída desses elementos não pode decidir-se satisfatoriamente.
Em sua importante obra, “Principles of Psychology”, publicada no início do século XX, James afirma:
É-me muito difícil, se não mesmo impossível, pensar que espécie de emoção de medo restaria se não se verificasse a sensação de aceleração do ritmo cardíaco, de respiração suspensa, de tremor dos lábios e de pernas enfraquecidas, de pele arrepiada e de aperto no estomago. Poderá alguém imaginar o estado de raiva e não ver de perto em ebulição, o rosto congestionado, as narinas dilatadas, os dentes cerrados e o impulso para ação vigorosa, mas, ao contrário, músculos flácidos, respiração calma e um rosto pálido? (JAMES, W., 1905 apud DAMÁSIO, 1996, p.159).
Com essa citação, James nos chama à atenção para a idéia de que há um mecanismo básico em que determinados estímulos do meio acionam reações específicas do corpo.
Não obstante, na concepção de Damásio, em muitos momentos da vida do homem, como ser social, deflagram-se as emoções após um processo mental de avaliação não automática, mas sim voluntária, ou seja, há um amplo espectro de estímulos que se associam aos estímulos inatamente selecionados.
Essas reações são avaliadas e o que tudo indica segundo Damásio, algumas emoções possuem características pré-organizadas (as emoções experimentadas na infância do choro, dos gritos, etc, são exemplos disso) Por outro lado, existem “emoções secundárias” que se caracterizam por serem construídas interpostas às “emoções primárias”, de modo a serem vivenciadas na fase adulta.
Vejamos com atenção o que Damásio quer nos dizer com o termo “emoções primárias”
Em termos gerais, as “emoções primárias” envolvem disposições inatas para responder a certa classe de estímulos. Por exemplo: somos como que inatamente “pré-programados” a sentir medo de animais de grande porte, ou a determinado tipo de movimento, como por exemplo, das cobras e de outros répteis.
Essas características seriam processadas pelo sistema límbico (amígdala). A emoção correspondente ao medo resulta da ativação de núcleos neurais no límbico, capaz de representar dispositivamente o estado do corpo. Não é necessário o reconhecimento de um animal específico ante os olhos, mas apenas a sutileza de suas características, de maneira que os córtices sensoriais iniciais fazem uma classificação representando no corpo o sinal de perigo.
Em organismos evoluídos esse sistema garante uma coerência entre o estímulo que deflagrou a emoção e seu impacto no organismo, ou seja, a sensação de uma emoção.
De fato que não haveria necessidade do organismo, no ato de interagir com o objeto causador da emoção, se conhecer nesse processo relacional, uma vez que há maneiras automáticas e adaptativas de responder a esses estímulos. Contudo, com a emergência de uma consciência, os organismos vivos alcançaram mecanismos seguros de sobrevivência.
Com efeito, nos afirma Damásio (1996, p. 161):
[...] se vier, a saber, que o animal ou situação X causa medo, você tem duas formas de se comportar em a X. A primeira é inata, você não a controla; além disso, não é especifica de X: pode ser causada por um grande número, de seres, objetos e circunstâncias. A segunda forma baseia-se na sua própria experiência e é especifica de X. O conhecimento de X permite-lhe pensar com antecipação e prever a probabilidade de sua presença num dado meio ambiente, de modo a conseguir evitar X antecipadamente, em vez de ter de reagir a sua presença numa emergência.
Ao utilizar a terminologia “sentir os estados emocionais”, Damásio se refere à consciência das emoções. Essa permite com que as respostas, baseadas na história de cada indivíduo ao interagir com o meio, sejam versáteis.
Qual seria a base neural na qual repousariam as “emoções primárias?”
De acordo com Damásio (1996), as emoções primárias, entendidas aqui como sinônimo de inatas, pré-organizadas, se articulam em uma rede intrigada do sistema límbico, onde a amigdala e o cíngulo assumem papéis significativos.
Muitas foram às pesquisas empíricas envolvendo a influência da amigdala nos processos emocionais. Damásio nos afirma que os trabalhos de Heinrich Kluver e Paul Bucyl (1973) já demonstravam que pacientes submetidos à lobotomia temporal apresentavam embotamento afetivo significativo, além de outros transtornos emocionais, logo após a intervenção cirúrgica.
Em 1932, Breckner, um famoso neurologista da Columbia University desenvolveu um trabalho interessante onde se relacionava o córtex frontal com as emoções.
O doente A, por ele denominado, apresentou um quadro clínico de tumor cerebral, mais precisamente um meninginoma. O tumor crescia e comprimia os lobos frontais. Breckner retirou o tumor com sucesso, porém, juntamente com o tumor, retirou-se também boa parte dos lobos frontais esquerdo e direito. No lado direito retirou-se todo o córtex que se localizava em frente das áreas responsáveis pelo movimento. Os córtices na superfície ventral (orbital) e na parte inferior da superfície (mediana) também foram removidos.
Após a cirurgia, o paciente A gozava de boa saúde. A relação espaço-temporal permaneceu íntegra assim como a memória convencional. No âmbito da linguagem não houve alteração. Na esfera racional, o paciente era capaz de fazer cálculos e até mesmo jogar xadrez com muita habilidade. Qual o problema com o paciente A?
O problema estava na vida afetiva. Certo sinal de embotamento se evidenciava sempre que ele propunha se relacionar com outras pessoas. Não havia nenhum sentimento de empatia pelo outro, nem ao menos um sinal de vergonha, tristeza ou angústia diante de tudo aquilo que lhe havia acontecido. Em suma, o que ficou comprometido em nosso paciente A foi sua capacidade de decidir por meio de ações mais vantajosas.
Como podemos perceber as “emoções primárias” por si só não são capazes de explorar a complexidade dos processes e comportamentos emocionais. Com efeito, nos afirma Damásio (1996, p. 163):
Creio, no entanto, que em termos do desenvolvimento de um indivíduo seguem-se mecanismos de emoções secundárias que ocorrem mal começamos a ter sentimentos e formam ligações sistemáticas entre categorias de objetos e situados, por um lado, e, emoções primárias por outro. (Grifo do autor).
As “emoções secundárias”, por outro lado, necessitam não somente do sistema límbico, mas também de outras estruturas anatômica e fisiologicamente mais evoluídas. Essas estruturas são necessárias à produção de “emoções secundárias.” Considere a seguinte situação:
Você está no aeroporto à espera do seu vôo e de repente encontra um amigo que há muito tempo não via. Partindo do princípio de que você é uma pessoa normal, obviamente você sentirá emoções: taquicardia inesperada, talvez vontade de chorar, ou um “aperto” no estômago, uma alegria indizível, suas mãos poderão ficar frias e úmidas, entre outras manifestações físicas e psicológicas. A questão é: o que acontece, em termos neurobiológicos, quando se experimenta essa emoção? E mais, o que significa “experienciar uma emoção?”.
Como dissemos anteriormente, no momento da experiência da emoção, o organismo se vê em um estado de mudança, tanto em termos biológicos quanto psicológicos. O organismo como um todo se empenha em buscar, de uma maneira rápida e segura, um equilíbrio funcional, ou em outras palavras, uma homeostase.
Em se tratando de nosso exemplo, o processo inicia-se com considerações deliberadas em relação a esta pessoa em particular: afinidades com a pessoa, valor que ela representa etc. Muitas dessas considerações acontecem em um nível imagético, não-verbal, enquanto outras podem assumir um conteúdo verbal: as palavras, o timbre de voz, lembranças de discursos, acontecimentos. A base neural de todo esse substrato representável ocorre em córtices sensoriais iniciais (visual, auditivo, olfativo).
Em nível inconsciente, redes presentes no córtex pré-frontal reagem como que automaticamente a todos os sinais resultantes dos processos imagéticos descritos. Esta resposta pré-frontal só é possível graças à existência de representações dispositivas adquiridas e não inatas, isto é, aquilo que no decorrer da história de vida de cada um foi-se acumulando e formando, de modo a construir a individualidade.
Damásio (1996) acredita que a resposta das disposições pré-frontais (inconsciente e automática) tem como base neural a amígdala e o cíngulo. Estas por sua vez, ativam os núcleos do sistema nervoso autônomo, enviando sinais ao “sistema inato”, de modo a alterar significativamente a musculatura esquelética.
O sistema endócrino e peptídeo são ativados, alterando o estado do organismo por meio de uma série de ações químicas. Por final, há uma ativação dos núcleos dos neurotransmissores não específicos, situados no tronco cerebral e prosencéfalo basal, que liberam “informações químicas” em regiões do telencéfalo (gânglio basal e córtex cerebral).
Como podemos observar, as mudanças ocorridas nas mais diversas estruturas biológicas produzem certo tipo de “estado emocional do corpo”. Por outro lado, a ativação dos núcleos dos neurotransmissores não específicos parece não provocar uma reação no corpo, propriamente dita, mas num determinado grupo de estruturas do tronco cerebral, responsável pela regulação do corpo. Nas palavras de Damásio (1996, p. 167): “Tem um impacto muito importante no estilo e eficiência dos processos cognitivos e constitui uma via paralela para a resposta emocional.”
Contudo, resta-nos ainda tentar responder a seguinte questão: Seriam os processos biológicos, condição necessária e suficiente para se entender a “experiência de uma emoção” ou de “sentir uma emoção”?
É bem verdade que o aspecto relativo à conservação não depende necessariamente da consciência, pois como vimos há seres unicelulares que lutam por se manterem na existência e, contudo, possuem uma estrutura neurobiológica rudimentar, mas sabemos também que o surgimento de um cérebro evoluído e conseqüentemente de uma consciência permitiu às espécies uma maior vantagem no processo de seleção natural.
Vimos também que a diferença entre emoções primárias e secundárias é que nas primeiras as mudanças biológicas ocorrem em um nível inconsciente, ao passo que as secundárias caracterizam-se pela constatação de um sentimento.
Desse modo, nos parece que o conceito de emoção, precisamente as “emoções secundárias”, encontra-se relacionado ao conceito de consciência, uma vez que, para Damásio (1996, p. 168) “existem outras alterações do estado do corpo que só são perceptíveis pelo dono desse corpo.”
2 Além da simples sensação corporal
Para o filósofo David Chalmers (1995) “There is no just one problem of consciousness. “consciousness” is an ambiguous term[...]”1
Para Chalmers (1995), argumenta que há dois tipos de problemas quando falamos sobre consciência: o problema fácil e o problema difícil. O primeiro pode ser explicado por mecanismos computacionais ou neurais. Por exemplo: a habilidade para discriminar, categorizar e reagir a estímulos do meio-ambiente; a habilidade de um sistema para acessar seus próprios estados internos, etc. Todos esses problemas, na concepção de Chalmers, podem ser descritos e explicados por meio de recursos computacionais ou neurais. Por outro lado, o problema difícil da consciência se refere justamente ao problema da experiência consciente.
No processo de pensar e perceber alguma coisa há mecanismos de processamento de informação neurofísicos e neuroquímicos envolvidos, mas há também um aspecto subjetivo. Por exemplo: ao olharmos para uma rosa vermelha acontece uma série de mudanças processuais e informacionais em nosso organismo que podem ser explicadas a nível físico. Mas há, além disso, também a experiência do vermelho que é sentida pelo indivíduo. Com efeito, nos afirma Chalmers (1995, p. 3)
When we see, for exemple, we experience visual sensation: the felt quality of redness, the experience of dark and light, the quality of depth in a visual field. Other experiences go along with perception in difference modalities: the sound of a clarinet, the smell of mothballs. Then there are bodily sensations, from pains to orgasms, mental images that are conjured up internally; the felt quality of emotion, and the experience of a stream of conscious thought. What unites all of these states is that there is something it is like to be in them. All of them are states of experience. 2
Toda nossa discussão situa-se em torno da experiência qualitativa sentida pelo sujeito. Na perspectiva de Chalmers, o grande problema é descobrir porque que quando o nosso sistema visual ou auditivo se empenha em um processamento informacional nós temos concomitantemente a experiência auditiva ou visual. Apesar de todos os recursos oferecidos hoje pelas neurociências não somos capazes de dar uma resposta satisfatória a esta questão.
Consideremos a seguinte experiência de pensamento sugerida pelo filósofo Frank Jackson:
Mary é uma neurocientista do século XXIII e é uma especialista renomada em processos cerebrais responsáveis pela visão da cor. Ela conhece tudo sobre cor: os processos psicofísicos relacionados à cor, ela também sabe como o cérebro discrimina os estímulos, bem como integra a informação. Conhece tudo sobre a cor, o conjunto de ondas no espectro da luz entre muitas outras coisas. Não obstante, Mary passou toda sua vida trancada em uma sala branca e preta, sem jamais ver cor alguma. Mary nunca vivenciou ou experimentou, por exemplo, o vermelho.
Ao que nos parece, existem fatos sobre a experiência consciente que não podem ser explicados somente à luz de interações neurais. Estaria, então, toda nossa indústria, fadada ao fracasso? Nas palavras de Chalmers, não: “Notavelmente, a experiência subjetiva parece emergir de um processo físico, mas não temos nenhuma idéia de como ou por que é assim.” (CHALMERS, [2003], p.43).
O fato de não termos ainda encontrado uma resposta satisfatória ao “hard problem”, não anula em hipótese alguma nossa esperança em encontrar uma explicação científica.
Como já dissemos, a consciência contribuiu de maneira significativa à perpetuação e conservação da vida, uma vez que possibilitou ao homem construir um conjunto de regras e normas com o objetivo de alcançar, o máximo possível, o equilíbrio.
Com efeito, nos afirma Penrose (1989, p. 412 apud ECCLES, 1994, p. 66):
O que é que faz verdadeiramente a consciência? ... Que podemos fazer graças ao pensamento consciente que não pode ser feito inconscientemente?... De certa maneira, temos a necessidade da consciência a fim de tratarmos de situações em que temos de formar novos juízos, em que as regras não foram estabelecidas à partida. É muito difícil ser exato quando a distinção entre os tipos de atividade mental que aparecem requerer a consciência e os que não a requerem.
A capacidade da mente em formular juízos constitui, na visão de Penrose, a marca essencial da consciência, ou seja, a capacidade de diferenciar o verdadeiro do falso, contemplar e distinguir a beleza da fealdade.
3 O corpo como substrato da consciência
A idéia do corpo como sustentáculo do eu deve guiar mais uma vez nossa discussão. Seguindo os passos de Damásio conseguimos formular o conceito do que seja uma emoção, isto é, a combinação de todo um processo de avaliação mental. Para ele, esse processo pode ser:
[...] simples ou complexo, com respostas dispositivas a esse processe, em sua maioria dirigida ao corpo propriamente dito, resultando num estado emocional do corpo, mas também dirigida ao próprio cérebro (núcleos de neurotransmissores no tronco cerebral, resultando em alterações mentais adicionais) (DAMÁSIO, 1996, p.169).
A capacidade de reconhecer essas alterações “mentais adicionais” constitui o pano de fundo das emoções. No momento em que vivenciamos algum tipo de emoção nosso corpo sofre alterações que são ora percebidas por um observador externo (por exemplo o rubor de nossa pele, contrações da musculatura facial, o olhar de pânico, entre outros), ora sentida por nós mesmos, por exemplo às contrações gastrintestinais e taquicardia. Independentemente do tipo de alteração que soframos, o cérebro sinaliza todas essas modificações por meio da existência de nervos periféricos que carregam impulsos elétricos pela pele. As estruturas límbicas e os córtices somatossensoriais situados nas regiões insular e parietal são responsáveis por obter uma imagem do que acontece com o organismo durante uma emoção.
Diferentemente do modelo representacional clássico que concebe a existência de um homúnculo no cérebro que recebe sinais das mais variadas estruturas do corpo, a concepção de mapeamento proposta por Damásio acontece dinamicamente, isto é, se renova constantemente, de modo a ser possível, utilizando uma metáfora computacional, termos um acesso on-line do que está acontecendo no organismo a cada momento que ocorre uma emoção. Há também alterações complexas de natureza bioquímica envolvidas no processo de sentir uma emoção, contudo, este não é objeto de nosso presente trabalho.
Muitas dessas alterações corporais são sentidas ou vivenciadas como pertencentes ao nosso organismo. A experiência das alterações corporais associadas a conteúdos cognitivos específicos é o que Damásio denomina sentimento. De acordo com Damásio:
Se uma emoção é um conjunto de alterações no estado do corpo associada a certas imagens mentais que ativaram um sistema cerebral especifico, a essência do sentir de uma emoção é a experiência dessas alterações em justaposição com as imagines mentais que iniciaram o ciclo. (DAMÁSIO, 1996, p.175).
Damásio acredita que para surgir um sentimento é necessária uma justaposição de uma imagem do corpo com a imagem de alguma coisa. O que Damásio quer nos dizer com o conceito de justaposição?
Para Damásio (1996), a imagem do corpo propriamente dita emerge após a imagem dessa “alguma coisa”. Em termos neurais, essas imagens se mantêm separadas, não no sentido cartesiano de se opor duas substâncias, de um lado a corporal e do outro a mental, mas de uma combinação. Com efeito, nos afirma Damásio (1996, p. 177):
A idéia de que o “qualificado” (um rosto) e o “qualificador” (o estado corporal justaposto) se combinam, mas não se misturam ajuda a explicar porque é possível sentirmo-nos deprimidos quando pensamos em pessoas ou situações que de modo algum significam tristeza ou perda, ou nos sentimos animados sem razão alguma imediata que a explique.
Há também outro aspecto importante a ser sinalizado. Apesar de existir uma série de componentes essenciais dos sentimentos, em temos cognitivos e neurais, o problema de saber como sentimos um sentimento permanece em aberto.
Acreditamos que as correlações entre o estado do corpo e as mais diversas regiões cerebrais são importantes, porém, não explicam como de fato sentimos o sentimento, mas nos apontam um caminho. Segundo Damásio (1996, p. 178): “A recepção de um conjunto amplo de sinais sobre o estado do corpo nas zonas cerebrais apropriadas é o começo necessário, mas não suficiente para os sentimentos serem sentidos.”
Este talvez seja o “Hard Problem” dos sentimentos. Para Damásio (1996) sabemos que um sentimento em relação a um determinado objeto funda-se numa subjetividade da percepção do objeto e do estado corporal produzido pelo objeto bem como as alterações em nível do pensamento durante todo o processo. Como podemos perceber, nos é tentador separar de um lado a subjetividade e do outro as manifestações corporais. Este é com certeza o ranço metafísico deixado por Descartes ao pensamento ocidental. Nossa tentativa é de diluir ou enfraquecer o máximo possível essa idéia.
O sentimento emerge do corpo e é neste que ele se situa. A justaposição de uma imagem do corpo associada a “algo mais” constitui o sentimento, não como uma “união substancial”, mas como combinação entre elementos cujas bases são comuns a ambos, ou seja, o próprio corpo.
Ao pensarmos na idéia de corpo, isto é, em emoções e sentimentos, somos levados quase que inevitavelmente a retomar uma antiga questão que desde os tempos de Willian James incomodava as neurociências: Fugimos porque sentimos medo ou sentimos medo porque fugimos?
Na concepção de James são as reações fisiológicas que produzem sentimentos. Se tomarmos como exemplo as emoções envolvidas durante a ação de fuga, perceberemos que algumas reações fisiológicas são observáveis por outros enquanto que outras são sentidas somente pelo sujeito que vivencia aquela situação: aumento da pressão sangüínea, taquicardia, midríase, contrações musculares e gastrintestinais. As respostas fisiológicas retornam ao cérebro por meio de uma sensação física, a fim de que um padrão único de feedback sensorial permita com que cada tipo de emoção tenha uma qualidade específica. Para melhor compreender a idéia das reações fisiológicas que provocam sentimentos, Damásio irá cunhar uma subespécie de sensações, a saber, o conceito de “sentimento de fundo.”
Damásio (1996) acredita que as emoções de fundo originam-se em estados corporais de “fundo” e não em estados emocionais. Ela é a imagem do corpo quando este se encontra em repouso, isto é, quando não está agitado pelas emoções.
As sensações de fundo acontecem de maneira contínua, embora não possamos perceber a cada momento o que ocorre em nosso corpo. Não obstante, é por meio dessas sensações que somos capazes de respondemos a questão: “como se sente”? Damásio nos lembra que este tipo de pergunta não se refere apenas ao modo como estamos levando a vida, nossas atividades diárias, etc. Ao darmos uma resposta fazemos menção ao nosso próprio estado corporal. Por exemplo, como nos comportaríamos se de repente, ao dirigirmos essa pergunta a uma pessoa, ela nada soubesse sobre como se sente?
Alguns doentes acometidos por anosognosia prototípica perderam por completo a noção de seu estado de saúde. Pelo fato de desconhecerem suas atuais debilidades, negam que estejam doentes. Com efeito, nos afirma Damásio (1996, p. 184):
Não reconhecem que estão paralisados, mesmo quando percebem que não mexem os ombros, por exemplo, ao serem confrontados com a realidade e obrigados a ver a imobilidade da mão e do braço esquerdo [...] Suas manifestações emocionais são limitadas ou inexistentes os sentimentos – por sua própria verificação ou por interferência de um observador - são igualmente nulas.
Pacientes anosognósicos com comprometimento cerebral, seja por uma lesão ou por ter um tumor, apresentam falhas de intercomunicação entre regiões responsáveis pelo mapeamento do corpo. Os estudos, incluindo as pesquisas por Damásio e sua equipe, confirmaram que a maioria dessas regiões situa-se no hemisfério direito, não excluindo o esquerdo. Algumas regiões mantêm um vínculo muito estreito de comunicação e se localizam na ínsula, no lobo parietal e na substância branca. Além do mais, encontramos ligações significativas entre tálamo, córtex frontal e gânglios basais.
Para Damásio (1996), doentes com anosognosia apreendem de modo insuficiente as informações relativas ao seu estado corporal, ou seja, não há uma atualização das próprias representações corporais.
Sendo assim, para essas pessoas a capacidade de reconhecimento imediato e automático dos estados corporais fica comprometida. Embora sejam capazes de formar uma imagem de como eram seus corpos, essa imagem agora se apresenta desatualizada. Essa é a justificativa que eles utilizam para dizer que estão saudáveis, não obstante os sinais visíveis da doença.
Pesquisas envolvendo pacientes anosognósicos nos apontam um caminho interessante no que se refere aos estados mentais. Ao que tudo indica, eles nos apresentam a idéia de uma mente privada da possibilidade de situar-se no presente do seu estado corporal. Damásio (1996) levanta a hipótese de um “eu desintegrado”, ou seja, apesar do conhecimento da identidade pessoal estar preservada e isso pode se notar por intermédio de suas afirmações: “eu sei quem sou e onde estou”, se perguntasse as elas como se sentem após uma delicada cirurgia dirão que não estão doentes, mas que se sentem muito bem. Nas palavras de Damásio, pode-se observar o quão desatualizado se encontram as informações: “A teoria que esses doentes criaram acerca de suas mentes e das mentes dos outros encontra-se em estado deplorável, irrevogavelmente desatualizada e defasada da época histórica em que eles e seus observadores se encontram.” (DAMÁSIO, 1996, p.185). Embora o meio em que vivemos se apresente em constante mudança bem como as imagens que dele temos, nossa identidade pessoal se caracteriza por assumir uma regularidade em meio à irregularidade. Desse modo, a continuidade dos sentimentos de fundo se refere à própria continuidade do organismo vivo, uma vez que esses sentimentos fazem menção ao próprio estado corporal do organismo.
4 As drogas da felicidade
Pelo que podemos observar até o presente momento, tanto as emoções quanto os sentimentos, incluindo também os sentimentos de fundo, encontram-se alicerçados na idéia que temos de organismo vivo. Assim, duas questões se colocam contundentemente à nossa investigação: quais seriam os processos neurais envolvidos no “sentir” de um estado emocional ou de uma sensação de fundo? Seriam os processos neurais, condição necessária e suficiente para se sentir uma emoção ou um sentimento de fundo?
Muitas respostas foram aventadas no sentido de uma busca “desenfreada” por encontrar substâncias neuroquímicas capazes de explicar as emoções (as indústrias de psicofármacos que o digam). Contudo, a descoberta de tais substâncias que alteram comportamentos emocionais não é suficientemente capaz de explicar o que sentimos. Uma coisa é sabermos que certos tipos de substâncias químicas podem provocar determinados tipos de sentimentos ou emoções e outra bem diferente é conhecer os mecanismos pelos quais se consegue alterar as emoções ou os sentimentos.
Em outras palavras, podemos saber que há substâncias que atuam em determinados neurônios, circuitos e receptores, porém toda essa “maquinaria neural” não nos possibilita responder a questão do porque nos sentimos tristes ou alegres. Para Damásio (1996), o máximo que conseguimos fazer é estabelecer uma relação de causa e efeito entre substâncias e sensações, mas não podemos explicar qualitativamente como se dá a passagem de um nível a outro.
Não estamos tentando ressuscitar a idéia de um homúnculo que represente no “teatro cartesiano” da mente essa passagem. Acreditamos que além de uma explicação causal há elementos cognitivos indispensáveis na compreensão da emergência de um sentimento. Esses elementos cognitivos também requerem a presença de substâncias químicas, uma vez que essas estruturas não são etéreas ou diáfanas, mas não se reduzem as explicações neuroquímicas. Um exemplo clássico que podemos tomar é o caso da depressão. Em quadros depressivos algumas funções cognitivas e afetivas ficam comprometidas, porém não podemos por essa razão explicar esta situação somente a partir de uma diminuição de serotonina ou dopamina ou qualquer outro neurotransmissor.
Outra “tentação” que muitos neurocientistas caem é de tentar explicar o sentimento somente a partir do dado biológico. Não nos é suficiente explicar quais são os neurotransmissores envolvidos no processo de sentir. Precisamos compreender de que modo às representações corporais se tornam subjetivas.
Na concepção de Damásio (1996), para podermos ter algum tipo de sentimento em relação a uma pessoa ou acontecimento, o cérebro precisa encontrar um meio de representar causalmente a pessoa ou o acontecimento ao estado do corpo de modo coerente.
Entre os sinais do corpo e o objeto causativo da emoção existem zonas de convergência que recebem sinais da atividade cerebral que assinala uma determinada entidade, de maneira a mapear tanto os córtices sensoriais iniciais quanto da atividade cerebral que assinala as alterações corporais. Para Damásio (1996), as zonas de convergência são capazes de receber sinais desses dois lugares, graças às ligações neurais de feedforward . “Essa representação intermediária preserva a ordem de início da atividade cerebral e, além disso, mantém a atividade e atenção por meio de conexões de feedback dirigidas para os dois locais iniciais.” (DAMÁSIO, 1996, p.193).
Há um verdadeiro equilíbrio na troca de sinais entre essas três estruturas, de forma que o organismo consegue sentir-se no processo da emoção.
Embora haja estruturas corticais envolvidas neste processo, não podemos deixar de mencionar a relação entre estruturas subcorticais, de modo especial as do tálamo. Não obstante a toda essa explicação, os conteúdos emocionais, ou em uma linguagem chalmersiana, a sensação da experiência está intrinsecamente relacionada à consciência.
Sendo assim, acreditamos que se faz necessário compreendermos mais a fundo os mecanismos subjacentes a cada um dos elementos.
De acordo com Pereira (2003, p. 116):
Embora uma seção sobre emoções estivesse presente em muitas coletâneas de estudos neurocientificos desde os anos sessenta , sua abordagem quase sempre se resumia a identificação das áreas cerebrais e mecanismos bioquímicos envolvidos. Uma adequada conceptualização dos fenômenos envolvidos é tarefa difícil, e a compreensão das correlações entre base neural de emoção e sua fenomenologia ainda é uma área incipiente na neurociência afetiva e áreas afins (como a neuropsicofarmacologia e a psiquiatria biológica).
Como podemos observar as emoções e os sentimentos não devem ser vistos como entidades metafísicas ou desencarnadas do corpo, mas requerem um estudo aprofundado dos mecanismos biológicos envolvidos, bem como uma análise séria de sua fenomenologia, vista aqui não como substância imaterial ou etérea, mas como entidades relacionadas ao organismo vivo.
Referências
CHALMERS, D. J. Facing Up to the Problem of Consciousness. Journal of Consciousness Studies, Australia, v.2, n. 3, p. 200-19, 1995.
______. O enigma da consciência. Scientific Amerícan, Edição Especial: segredos da mente n. 4, [2004].
DAMÁSIO, A. O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia da Letras, 1996.
______. O Mistério da Consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si. Tradução de Lauro Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
______. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. Adaptação para o português do Brasil Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2004a.
ECCLES, C J. Cérebro e Consciência: o self e o cérebro. Tradução de Ana André. Lisboa: Instituto Piaget, 1994.
PEREIRA, JR., A. Uma abordagem naturalista da consciência humana. Trans-form-ação, São Paulo: UNESP, v. 26, n. 2, p. 109-141, ano 2005.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
personalidade
X - TEORIA DA PERSONALIDADE
Introdução
A personalidade é a matéria-prima com a qual o psicoterapeuta trabalha.
Compreender bem a natureza dessa "matéria-prima" parece ser indispensável para que se possa entender o processo que chamamos de Psicoterapia.
Por isso, ao entrarmos neste tema, iniciaremos pela conceituação de alguns termos que utilizaremos, ao falarmos sobre a teoria da personalidade que nos propomos a apresentar aqui.
Conceitos Básicos
"Organismo"
Este conceito se refere à ideia do indivíduo como um todo. Organismo corresponde, portanto, ao indivíduo total. O indivíduo, a pessoa, reage ao campo fenomenológico como um todo. Sua motivação básica é realizar-se, manter-se e melhorar.
Simboliza, ou não, suas experiências: simboliza, nega ou ignora.
- Quando simboliza, a experiência da pessoa pode ser percebida claramente a nível de sua consciência.
- Quando nega, a experiência não chega a entrar no campo da consciência ou, se por algum motivo é inevitável chegar a ela, surgem distorções que modificam integralmente o verdadeiro significado do que foi vivenciado pelo indivíduo.
- Quando ignora, as experiências nem chegam a sofrer distorções como na negação. É como se elas simplesmente não tivessem ocorrido.
"Campo fenomenológico"
Chamamos de campo fenomenológico à totalidade da experiência. É o campo – o contexto – no qual as experiências acontecem. Tais experiências podem ser conscientes, o que corresponderia àquelas que podem ser simbolizadas; ou podem ser inconscientes, ou seja, não simbolizadas.
Self
É o conceito nuclear da teoria da personalidade que ora lhes apresento.
É um conjunto organizado e mutável de percepções que se referem ao indivíduo.
Corresponde às características, aos atributos, aos valores e às relações que o sujeito reconhece como descritivos de si mesmo e que percebe como dados de sua identidade.
O self estabelece a interação Organismo/Meio.
Introjeta ou distorce valores dos outros.
Procura conseguir consistência, o que faz com que o organismo reaja de modo condizente com o self. Por isso, as percepções não condizentes com ele são percebidas como ameaçadoras.
"O self pode mudar como resultado da maturidade e da aprendizagem".
AS CARACTERÍSTICAS DAS CRIANÇAS
Vejamos, agora, como esses conceitos, apresentados acima, se entrelaçam na formação da personalidade.
Veremos, também, como surgem os desajustes a nível da personalidade e sua correlação com o modo como o Self de uma pessoa foi construído ao longo da sua história de vida.
O Self começa a ser construído – concretamente – a partir do nascimento de uma criança. Por isso, focalizaremos este ponto a partir daqui.
Desde que começou a surgir o interesse pelo estudo de crianças, até hoje, não há divergência quanto ao fato de que ela vive suas experiências como realidade e ninguém melhor do que ela é capaz de apreender sua realidade
Há, nela, uma tendência a "atualizar" as potencialidades do seu organismo e ela reage ante a realidade em função desta tendência à atualização, que corresponde a um esforço constante de sua necessidade de atualização.
Em sua interação com a realidade, a criança funciona como um "todo" organizado. Sua experiência é acompanhada de um processo contínuo de valoração. Atribui valor positivo às experiências que percebe como válidas para a preservação e a revaloração do seu organismo, e negativo às contrárias a essa. Tende a buscar as "experiências que percebe como positivas e evitar as que percebe como negativas".
OBS.: A criança vive num meio que, do ponto de vista psicológico, não existe mais senão para ela, em um mundo de sua própria criação. Ex: Uma pessoa boa estende os braços para a criança e ela fica com medo e chora.
O DESENVOLVIMENTO DO "EU"
Uma certa parte da experiência da criança se diferencia e é simbolizada na consciência. Tal parte corresponde à consciência de existir e de atuar como um indivíduo (experiência de EU).
Na interação com o ambiente, a consciência de existir aumenta e organiza-se cada vez mais para formar a noção de EU, que, como objeto de percepção, faz parte do campo da experiência total.
NECESSIDADE DE CONSIDERAÇÃO POSITIVA
À medida que se desenvolve a noção de EU e essa noção se exterioriza, desenvolve-se, também, o que chamamos de necessidade de consideração positiva, de aceitação de seu EU por parte das pessoas e por parte de si mesma.
Inicialmente, essa necessidade se baseia em inferências relativas ao campo de experiência dos outros. A criança necessita de aceitação, de ser apreciada, gostada...
Progressivamente, a satisfação dessa necessidade vai-se tornando bilateral, ou seja, o indivíduo gosta de satisfazê-la nos outros e gosta de obter a satisfação desta necessidade através dos outros.
Nas idades mais tenras da criança, ela está em contato com pessoas que são imprescindíveis para sua sobrevivência, inclusive física. Essas pessoas são consideradas como "pessoas-critério". São tão vitais para a criança que, quando demonstram uma consideração positiva por ela, podem converter-se numa força diretiva e reguladora mais forte do que o processo de valorização "organísmica".
Explicando melhor, a tendência que move uma criança a valorizar suas experiências como boas ou más para ela, para seu crescimento, é organísmica, ou seja, é um processo interno, do seu organismo e, por isso mesmo, não precisa passar pela consciência ou por uma escolha "racional".
Mas, quando uma "pessoa-critério" (pai, mãe, ou alguém que cumpra esse papel para ela) explicita uma opinião, um julgamento sobre a experiência que está sendo vivida por uma criança, comumente ela adota essa avaliação externa em detrimento da sua própria. A isso chamamos de "complexo de consideração".
DESENVOLVIMENTO DA NECESSIDADE DE CONSIDERAÇÃO POSITIVA DE SI MESMO
Aos poucos, a criança experimenta satisfações ou frustrações relativas ao EU, que podem ser sentidas independentemente de toda manifestação de consideração positiva dos demais. A isso chamamos de consideração positiva de si mesmo.
Tal necessidade é adquirida das associações de experiências relativas ao EU com satisfação ou frustração da necessidade de consideração positiva.
Como consequência, o indivíduo se converte em sua própria "pessoa-critério".
A consideração positiva de si mesmo tende a se comunicar ao conjunto das experiências que se relacionam com o EU, quer dizer, com a imagem do EU, por "generalização".
Dessa forma, se a criança faz uma avaliação do próprio eu como negativa, essa percepção se generaliza para o seu EU como um todo.
DESENVOLVIMENTO DE UM MODO DE VALORAÇÃO CONDICIONAL
Quando as experiências de si mesmo de um dado sujeito são julgadas por certas "pessoas-critério" como dignas ou não de consideração positiva, as percepções do sujeito em relação a si mesmo se tornam igualmente seletivas.
Segue-se, daí, que as experiências em relação ao EU podem ser buscadas ou evitadas. Passa-se a buscar somente aquelas que são dignas de consideração positiva. A valoração passa a ser condicional e deixa de ser organísmica, já que ser o que se sente como melhor para si mesmo talvez não lhe garanta a aceitação dos demais e de si próprio. A criança passa a introjetar valores externos, que lhe garantam a aceitação por parte dos demais.
Tal atitude surge por não existir mais uma consideração positiva incondicional para consigo mesma. Acredita-se que seja pouco provável que tal atitude possa existir plenamente.
DESENVOLVIMENTO DO DESACORDO ENTRE O EU E A EXPERIÊNCIA
Devido à necessidade de consideração positiva de si mesmo, o indivíduo percebe sua experiência em função das condições a que chegou a se submeter.
a- As experiências que estão de acordo com aquela necessidade são percebidas ou simbolizadas corretamente na consciência;
b- As experiências contrárias àquela necessidade são "selecionadas", "deformadas", para poderem ficar de acordo com ela ou, então, são "interceptadas";
Daí se segue que a experiência leva consigo elementos não identificados e que se referem ao EU e, por isso, nem todas as experiências simbolizam corretamente na consciência, nem se incorporam à noção do EU.
Com a percepção seletiva, estabelece-se certo estado de incongruência ou de desacordo entre o EU e a experiência, e aparece um certo grau de vulnerabilidade e de mau funcionamento psíquico. O indivíduo passa a não ser "sincero" consigo mesmo, com o significado "organísmico" de sua experiência.
OBS.: Tudo isso se produz involuntariamente, como um processo natural e trágico, iniciado na infância.
DESENVOLVIMENTO DE CONTRADIÇÕES NA CONDUTA
O conflito entre o EU e a EXPERIÊNCIA, tal como falamos acima, dá lugar a um conflito análogo a nível da conduta.
a- Certas condutas, que são conformes à noção do EU, mantêm, atualizam e revalorizam o EU, são corretamente simbolizadas na consciência.
b- Outras são deformadas para se fazerem de acordo (conformes) com o EU.
A EXPERIÊNCIA DE AMEÇA E O PROCESSO DE DEFESA
As experiências não conformes à estrutura do EU são reconhecidas ao nível de subcepção (discriminação sem representação consciente).
Se a experiência ameaçadora fosse simbolizada corretamente, ocorreriam:
a- a noção do EU perderia seu caráter unificado;
b- a necessidade de consideração de si mesmo ficaria frustrada;
c- um estado de angústia se apoderaria do sujeito.
Surgem, daí, os processos de defesa que impedem que se produzam esses acontecimentos perturbadores.
Assim, o processo de defesa consiste em:
a- uma percepção seletiva;
b- uma deformação da experiência;
c- uma interrupção parcial ou total de certas experiências.
Como decorrência das defesas, surgem:
a- uma rigidez perceptual (devido à necessidade de deformar certos dados da experiência);
b- uma simbolização incorreta (devido à deformação e à omissão de certos dados);
c- ausência de discriminação ou discriminação perceptual insuficiente.
O PROCESSO DE DESMONORAMENTO E DESORGANIZAÇÃO PSÍQUICA
A teoria da personalidade, formulada até aqui, se aplica, em graus diferentes, a todo o indivíduo.
A seguir, veremos o que ocorre em casos em que há um mau funcionamento e que é perturbador para o sujeito.
1- Se existe um desacordo entre o EU e a EXPERIÊNCIA e se, por um fato crítico, tal desacordo fica revelado de modo brusco e inegável, o processo de DEFESA não terá nenhuma força. O sujeito sente este estado de desacordo ao nível da subcepção e se torna ansioso. O grau de angústia é proporcional à amplitude do setor do EU afetado pela ameaça.
2- Como o processo de defesa não tem força aí, a experiência fica corretamente simbolizada. Ante o CHOQUE desta tomada de consciência, produz-se um estado de desorganização psíquica.
3- Neste estado de desorganização, o indivíduo deve manifestar um comportamento estranho e instável.
Em certos momentos, expressa abertamente as experiências anteriormente negadas ou deformadas pelo processo de defesa; em outros, adota uma atitude de acordo com a estrutura do EU.
Nestas condições, o indivíduo se encontra numa luta constante que se traduz num comportamento incongruente, instável, análogo ao que se denomina personalidade múltipla.
PROCESSO DE REINTEGRAÇÃO
Consiste em produzir um processo que conduza a um restabelecimento de acordo entre o EU e a EXPERIÊNCIA.
Tal processo implica em:
1- Dar condições ao sujeito de:
a- valorar sua experiência de modo menos condicional;
b- aumentar o nível de consideração positiva incondicional de si mesmo.
2- A consideração positiva incondicional, manifestada ao cliente por uma "pessoa-critério" representa um dos meios de realizar estas condições:
a- a comunicação efetiva desta consideração positiva incondicional é possível por meio da compreensão empática;
b- daí surge uma redução e inclusive a abolição das condições que afetam
sua valoração;
c- com isso, aumenta a consideração positiva incondicional de si mesmo;
d- se ocorrer a compreensão e a redução, o nível de angústia diminui, o processo de defesa se desfaz, as experiências se simbolizam corretamente e são assimiladas à estrutura do EU.
3- Quando 1 e 2 ocorrem, há como consequência:
a- diminuição da sensibilidade em relação às experiências ameaçadoras;
b- a defesa é menos frequente;
c- aumenta o acordo entre o EU e a EXPERIÊNCIA;
d- aumenta a consideração positiva dos demais;
e- aumenta a consideração positiva de si mesmo;
f- a conduta é guiada mais pela valoração organísmica;
g- o indivíduo funciona cada vez melhor.
RELAÇÕES FUNCIONAIS RELATIVAS À TEORIA DA PERSONALIDADE
No momento atual, nenhuma teoria da personalidade pode expressar relações funcionais entre as variáveis que compõem sua estrutura, em termo de equações.
Contentamo-nos com o estabelecimento de certas relações muito gerais e qualitativas. Baseados nessas relações, construímos o nosso sistema teórico e o submetemos à prova.
O FUNCIONAMENTO ÓTIMO DA PERSONALIDADE
Quando as condições favorecem o funcionamento pleno, o indivíduo apresenta as seguintes características:
1- Está "aberto" à sua experiência (não há condutas defensivas);
2- Suas experiências são acessíveis à consciência;
3- Suas percepções são tão corretas como o permitem os dados de sua experiência;
4- A estrutura do EU concorda com a experiência;
5- A estrutura do EU é uma gestalt fluida, modificável pela assimilação de novas experiências;
6- O indivíduo é o centro da valoração de sua experiência; e sua valoração é contínua e organísmica;
7- A valoração não está submetida a condições externas (há uma consideração positiva incondicional para si mesmo);
8- É adaptado à situação e age de forma criadora nas situações novas;
9- Descobre que sua capacidade de valoração é uma fonte de direção digna de confiança;
10- Tendo em conta o caráter positivo de um ponto de vista afetivo, da consideração positiva recíproca, este indivíduo vive com os OUTROS na melhor harmonia possível.
NOTA: A personalidade que funciona plenamente é a que flui constantemente, que está em contínua mudança e cujas condutas específicas não se prestam à previsão. A única previsão que se poderia fazer sobre sua conduta é que esse indivíduo manifestará, em qualquer ocasião, um grau perfeito de adaptação criadora e que se comprometerá em um processo contínuo de atualização.
ILUSTRAÇÃO DE UMA APLICAÇÃO DA TEORIA DA TERAPIA
Desde o meu primeiro contato com as ideias de Rogers, suas pesquisas, sua teoria da personalidade e da terapia, pensei que seria interessante "radicalizar" algumas de suas ideias e transformar alguns conceitos em hipóteses a serem experimentadas, através de meios pouco ortodoxos em se tratando de métodos psicoterápicos.
Um conceito que sempre me chamou atenção foi o de self e sua construção. Por isso, a partir desse conceito, organizei alguns trabalhos e, entre eles, uma monografia, que representou meu trabalho final num curso de pós-graduação na UFF.
A construção do SELF ocorre ao longo da vida de uma pessoa, ou seja, ao longo de sua história pessoal.
Para muitas pessoas que estão acostumadas a lidar com a Abordagem Centrada na Pessoa e com a Terapia Centrada no Cliente, como propostas de ação que valorizam o momento aqui e agora da relação terapêutica, que reconhecem que a experiência vivida num processo terapêutico não se presta muito a ser algo congelado no tempo; quando a visão arqueológica da história do cliente fica em segundo plano, quando se busca vivenciar o momento exato em que ele experiencia seus sentimentos no instante mesmo em que eles acontecem... sei que falar em história do cliente pode parecer estranho.
Entretanto, é preciso que as pessoas, que possam estar interessadas em conhecer o que ando realizando, tenham um pouco de curiosidade e, mais do que isso, estejam abertas e sejam flexíveis para não partirem de conceitos preconcebidos sobre o que é ou não ACP, Rogeriano, ou algo assim.
Escrevi dois trabalhos, focalizando História/Psicoterapia/Self.
No primeiro, "Um Método Histórico e Uma Psicoterapia Centrada na Pessoa", (monografia apresentada à UFF, em 1995), cuja proposta foi apresentar uma aproximação entre o método da História, tal como é proposto por Paul Veyne, e o que ocorre na relação terapeuta-cliente.
No segundo, "Self: sua construção, desconstrução e autorreconstrução", apresentei um estudo mais dedicado a esse conceito teórico. Nele, procurei encontrar meios que pudessem ajudar o cliente a compreender como o seu Self foi construído ao longo de sua história.
Para isso, utilizei um método denominado Recapitulação Progressiva da História Pessoal. Nele, pretende-se, usando de recursos de estados alterados de consciência, buscar uma sequência significativa de lembranças do cliente em relação às percepções que foi obtendo de seu EU, nos seus contatos com as pessoas e os momentos significativos da sua vida, desde o período pré-natal, em que as lembranças são "viscerais, sensoriais, musculares..." até o momento atual vivido pelo cliente.
Trata-se de um método alternativo, oferecido a alguns clientes que apresentam uma historia pessoal que justifique sua utilização. Ele, como sugere, ajuda na compreensão do modo como o self daquela pessoa foi construído. A partir disso, o cliente começa a perceber como deixou de confiar na sua própria avaliação e a "desconstruir" seu self, ao mesmo tempo que experimenta uma autorreconstrução do mesmo.
É um método genuinamente "centrado no cliente", pois todo o processo ocorre no interior de quem o vivencia, sendo o terapeuta somente um auxiliar/facilitador nessa busca de compreensão do modo como ele chegou a organizar sua personalidade, as incongruências que viveu ao longo de sua história, e aquelas, ainda presentes nele, responsáveis por suas dificuldades psicológicas atuais.
XII- A PESQUISA NA TCC
A PCC, como já falamos, talvez seja um dos enfoques teóricos mais dedicado à pesquisa.
Acredito ser desnecessário, tendo em vista os propósitos deste trabalho, relacionar aqui todas as pesquisas feitas, suas conclusões, autores, etc.
Aos interessados por essa parte, recomendo a leitura dos capítulos referentes às pesquisas, nas referências bibliográficas que mencionamos no final deste documento.
É bom ressaltar que resultados interessantes poderão ser encontrados principalmente nos livros: Psicoterapia Centrada no Cliente, On Becoming a Person, Psicoterapia e Relações Humanas e Carl R. Rogers: de la psychothérapie a l ‘enseignement.
XIII- APLICAÇÕES DO ENFOQUE CENTRADO NO CLIENTE
Como na Psicoterapia Centrada no Cliente, a relação terapeuta/cliente foi sempre considerada um tipo especial do relacionamento em geral, e também como as mudanças e o desenvolvimento da terapia sempre foram vistos como consequência do crescimento e do desenvolvimento em cada "encontro" humano, obviamente esta abordagem terapêutica se expandiu, em suas teorias, e passou a abranger estudos dos fenômenos observáveis para além daqueles que ocorriam nos encontros entre o psicólogo e seu cliente nas consultas individuais.
GRUPO INTENSIVO
Pessoas procuram grupos terapêuticos por estarem com problemas ou por quererem ter uma experiência de crescimento, conhecimento sobre si mesmas e sobre os outros.
A Abordagem Centrado no Cliente se mostrou muito aplicável aos grupos de encontro, como também a grupos terapêuticos.
Em outras palavras, essa separação que fiz entre grupos de encontro e grupos terapêuticos é muito sutil.
Qualquer grupo tem em si um potencial terapêutico. Todavia, o que considero diferenciar um do outro é basicamente o tempo de sua existência e sua proposta.
Os grupos terapêuticos não têm um tempo de vida preestabelecido. Eles existirão por 1, 2, 3 ou mais anos.
Os grupos de encontro têm como uma de suas características a previsão de seu início e seu término. O grupo de encontro é mais um GRUPO INTENSIVO, embora tenha em si um potencial terapêutico incalculável. Destina-se mais a pessoas que tenham uma problemática existencial que não interfere de forma intensa, ou altamente paralisadora, no seu comportamento.
Uma pessoa destacadamente neurotizada, com problemas acentuados que a impedem de viver uma vida a nível suportável, uma pessoa altamente desestruturada em sua personalidade, pode-se beneficiar de um grupo de encontro, mas sabemos que poderá receber mais ajuda num grupo mais permanente ou numa terapia individual.
Sobre grupos de encontro, podemos ler os trabalhos de Rogers (1970), Caulson (1972) e Meador (1971), e ver os filmes, entre os quais temos: Journey Into Self, (1968); Because That’s My Way, (1971), Em busca de si mesmo...
APLICAÇÃO EM EDUCAÇÃO
Os conceitos básicos, a teoria e a metodologia da terapia centrada no cliente são altamente aplicáveis à Educação.
Na terapia individual, é criado um clima no qual o cliente aprende sobre si mesmo. Da mesma forma, o educador pode criar um clima no qual aprendizagens cognitivas e afetivas ocorram em sala de aula.
A aplicabilidade não fica encerrada nos limites da escola do ensino fundamental.
Todos os níveis de escolaridade podem ser beneficiados, quando o professor for uma pessoa que possua em si certas características atitudinais, tais como as que descrevemos anteriormente e que consideramos como necessárias e suficientes para pôr em marcha o processo terapêutico.
Sobre esse tema, temos um livro muito interessante do próprio Rogers, traduzido para o português com o título Liberdade Para Aprender.
Sugerimos, todavia, às pessoas interessadas no assunto, que, antes de ler essa obra, leiam outras como Psicoterapia Centrada no Cliente (Rogers), Teoria da Personalidade e Aprendizagem Centrada no Aluno (H.Justo).
Como leitura adicional, seria bom se estudássemos o livro de Miguel de la Puente, Carl Rogers de la Psicoterapia a l´Enseignement.
Muitas pessoas leram apenas a obra de Rogers (Liberdade para Aprender) e não conseguiram entender a mensagem mais profunda daquele livro, por falta de embasamento e conhecimento das ideias da Terapia Centrada no Cliente. Ficaram, no final, com uma noção bastante limitada sobre a aplicabilidade dessa teoria à Educação.
Para não nos alongarmos demais, diríamos que as ideias lançadas pela TCC, por terem em seu bojo princípios básicos de relacionamento humano, mostraram-se aplicáveis a qualquer situação em que se pretenda facilitar o aparecimento de relacionamentos humanos construtivos. É fácil, pois, imaginar o grande número de situações e ambientes, em que o enfoque CC tem possibilidade de trazer grandes contribuições.
XIV-CONCLUSÕES
A seguir, citaremos a tradução por inteiro do texto contido no capítulo 30, do livro de Kaplan e Sadock, páginas 1842/3, Ed. 1975.
Seria difícil melhorar o quadro que nos deu Maeder (1973) dessa abordagem e seu impacto teórico, filosófico e institucional:
A base teórica da terapia Centrada no Cliente é uma fé na ‘racionalidade’ quase que perfeita do crescimento humano sob condições ideais.
A tendência atualizante no homem é uma força muito grande que tem seu próprio ritmo e direção.
A tarefa do terapeuta é facilitar a consciência e a confiança do cliente em seus próprios processos atualizantes.
O achado mais básico da terapia centrada no cliente é a das atitudes do terapeuta, que cria um ambiente ideal no qual o cliente possa se permitir crescer e se desabrochar. O processo da terapia é verdadeiramente centrado no cliente, cuja experienciação interna dita o ritmo e a direção do relacionamento terapêutico. A atitude de confiança descompromissada nos processos de crescimento dos indivíduos é tanto um sistema de valores quanto um guia para a terapia.
Como tal é contrária aos valores vigentes das escolas, da família, da igreja, dos negócios e outras instituições deste país. A atitude que predomina nessas instituições é de delimitação cautelosa e de um ceticismo implícito do processo de crescimento humano.
Basta que se imagine uma família ou escola que adote uma atitude de confiança descompromissada nos processos de crescimento de seus membros numa atmosfera de autenticidade, carinho e compreensão, para que se possa ter uma idéia do contraste que isso representa em relação à maioria das famílias e escolas.
É possível que a influência da terapia centrada no cliente se faça sentir em escala maior nas instituições desse país no futuro, talvez mais do que em psicoterapia. Isto já é verdadeiro até certo ponto. A quantidade de pessoas em educação e religião, por exemplo, que estão adotando esses princípios parece aumentar a cada ano.
A tentativa de conclusão que se poderia esboçar é que três décadas de escritos, pesquisas e terapia centrada no cliente oferecem um depoimento sobre um sistema de valores que advoga confiança no crescimento e desenvolvimento dos indivíduos sob as condições referidas.
Como tal, a terapia centrada no cliente oferece um convite atraente, não só para o terapeuta numa relação cliente-terapeuta, mas também para grupos humanos de todos os credos, formas e tamanhos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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______. Psicoterapia e Consulta Psicológica. Brasil, Santos: Livraria Martins Fontes Editora, 1973 - Tradução do original publicado em 1942.
______. Psicoterapia Centrada Em El Cliente. Buenos Aires: Editorial Paidós, 1969 - Tradução do original publicada em 1951
______. Tornar-se Pessoa. Lisboa: Moraes Editores, 1970 - Tradução do original publicado em 1961.
______. Liberdade para Aprender. Belo Horizonte/MG: Interlivros de Minas Gerais Ltda., 1971 - Tradução do original publicado em 1969.
______. Grupos de Encontro. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 2002 - Tradução do original publicado em 1970.
______. Novas Formas do Amor - O casamento e suas alternativas. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1974 - Tradução do original publicado em 1972.
______. Sobre o Poder Pessoal. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 1978 - Tradução da publicação original de 1977.
______. Um Jeito de Ser. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária Ltda., 1983 - Tradução da publicação original de 1980.
______. Liberdade de Aprender em nossa década. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985. Tradução do original de 1983.
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ROGERS, C. R. SANTOS, A. M., BOWEN, M. C. Quando Fala o Coração - a essência da psicoterapia centrada na pessoa . Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.
ROGER, C. R. & KINGET, G. M., Psicoterapía y relaciones humanas: teoría y práctica de la terapía no dirigida. Tradução de Mercedes Valcarce. Madrid: Ediciones Alfaguara, 1967.
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ROGERS, C. R. e COULSON, W. R. O Homem e a Ciência do Homem. Belo Horizonte/MG: Interlivros de Minas Gerais Ltda., 1973 - Tradução do original publicado em 1968.
ROGERS, C. R. e ROSENBERG, R. L. A Pessoa Como Centro. São Paulo/EPU: Editora da Universidade de São Paulo, 1977. Publicação original.
ROGERS, C. R. [et al.] Em Busca de Vida. Da terapia centrada no cliente à abordagem centrada na pessoa. São Paulo: Summus Editorial Ltda., 1983 – Original.
LEITURAS COMPLEMENTARES
BELAS, J. L. Meus Textos. Página Pessoal - Rio de Janeiro - 2006
_____. O Estágio em Psicologia. In: Revista de Psicologia do Hospital Psiquiátrico Jurujuba, ano 1, vol. 2, Rio de Janeiro, 1976.
DE LA PUENTE, M. Carl R. Rogers: de la psychothérapie a l´enseignement. Paris: Epi S.A., 1970.
EVANS, R. I. - Carl Rogers: o homem e suas idéias. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora Ltda., 1979.
______. Construtores da Psicologia. São Paulo: Summus/Ed. da Universidade de São Paulo, 1979.
FRICK, W. B. Psicologia Humanista. Entrevistas com Maslow, Murphy e Rogers. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.
HANNOUN, H. L’attitude non-directive de Carl Rogers. Paris: Les Editions ESF, 1976.
ITÖ, HIROCHI. Introduccion al Counseling - El pensamiento de Carl R. Rogers. Madri: Editorial Razon y Fe S.A., 1971.
JUSTO, H. Carl Rogers -Teoria da Personalidade. Aprendizagem Centrada no Aluno. Porto Alegre: Livraria S. Antônio, 1973.
MARQUET, P-B. Rogers. Paris: Psychothéque/ Editions Universitaires, 1971.
MILHOLLAN, F. & FORISHA, B. E. Skinner X Rogers - maneiras contrastantes de encarar a educação. São Paulo: Summus Editorial Ltda. 1975
PERETTI, A. Libertad y Relaciones Humanas. Madrid: Ediciones Marova, 1971.
SANTOS, A. M. Momentos Mágicos - A natureza do processo energético humano. Brasília: CEGRAF, 1986
WOOD, J. K. et al. Abordagem Centrada na Pessoa. Vitória: Editora da Universidade Federal do Espírito Santo, 1994.
Introdução
A personalidade é a matéria-prima com a qual o psicoterapeuta trabalha.
Compreender bem a natureza dessa "matéria-prima" parece ser indispensável para que se possa entender o processo que chamamos de Psicoterapia.
Por isso, ao entrarmos neste tema, iniciaremos pela conceituação de alguns termos que utilizaremos, ao falarmos sobre a teoria da personalidade que nos propomos a apresentar aqui.
Conceitos Básicos
"Organismo"
Este conceito se refere à ideia do indivíduo como um todo. Organismo corresponde, portanto, ao indivíduo total. O indivíduo, a pessoa, reage ao campo fenomenológico como um todo. Sua motivação básica é realizar-se, manter-se e melhorar.
Simboliza, ou não, suas experiências: simboliza, nega ou ignora.
- Quando simboliza, a experiência da pessoa pode ser percebida claramente a nível de sua consciência.
- Quando nega, a experiência não chega a entrar no campo da consciência ou, se por algum motivo é inevitável chegar a ela, surgem distorções que modificam integralmente o verdadeiro significado do que foi vivenciado pelo indivíduo.
- Quando ignora, as experiências nem chegam a sofrer distorções como na negação. É como se elas simplesmente não tivessem ocorrido.
"Campo fenomenológico"
Chamamos de campo fenomenológico à totalidade da experiência. É o campo – o contexto – no qual as experiências acontecem. Tais experiências podem ser conscientes, o que corresponderia àquelas que podem ser simbolizadas; ou podem ser inconscientes, ou seja, não simbolizadas.
Self
É o conceito nuclear da teoria da personalidade que ora lhes apresento.
É um conjunto organizado e mutável de percepções que se referem ao indivíduo.
Corresponde às características, aos atributos, aos valores e às relações que o sujeito reconhece como descritivos de si mesmo e que percebe como dados de sua identidade.
O self estabelece a interação Organismo/Meio.
Introjeta ou distorce valores dos outros.
Procura conseguir consistência, o que faz com que o organismo reaja de modo condizente com o self. Por isso, as percepções não condizentes com ele são percebidas como ameaçadoras.
"O self pode mudar como resultado da maturidade e da aprendizagem".
AS CARACTERÍSTICAS DAS CRIANÇAS
Vejamos, agora, como esses conceitos, apresentados acima, se entrelaçam na formação da personalidade.
Veremos, também, como surgem os desajustes a nível da personalidade e sua correlação com o modo como o Self de uma pessoa foi construído ao longo da sua história de vida.
O Self começa a ser construído – concretamente – a partir do nascimento de uma criança. Por isso, focalizaremos este ponto a partir daqui.
Desde que começou a surgir o interesse pelo estudo de crianças, até hoje, não há divergência quanto ao fato de que ela vive suas experiências como realidade e ninguém melhor do que ela é capaz de apreender sua realidade
Há, nela, uma tendência a "atualizar" as potencialidades do seu organismo e ela reage ante a realidade em função desta tendência à atualização, que corresponde a um esforço constante de sua necessidade de atualização.
Em sua interação com a realidade, a criança funciona como um "todo" organizado. Sua experiência é acompanhada de um processo contínuo de valoração. Atribui valor positivo às experiências que percebe como válidas para a preservação e a revaloração do seu organismo, e negativo às contrárias a essa. Tende a buscar as "experiências que percebe como positivas e evitar as que percebe como negativas".
OBS.: A criança vive num meio que, do ponto de vista psicológico, não existe mais senão para ela, em um mundo de sua própria criação. Ex: Uma pessoa boa estende os braços para a criança e ela fica com medo e chora.
O DESENVOLVIMENTO DO "EU"
Uma certa parte da experiência da criança se diferencia e é simbolizada na consciência. Tal parte corresponde à consciência de existir e de atuar como um indivíduo (experiência de EU).
Na interação com o ambiente, a consciência de existir aumenta e organiza-se cada vez mais para formar a noção de EU, que, como objeto de percepção, faz parte do campo da experiência total.
NECESSIDADE DE CONSIDERAÇÃO POSITIVA
À medida que se desenvolve a noção de EU e essa noção se exterioriza, desenvolve-se, também, o que chamamos de necessidade de consideração positiva, de aceitação de seu EU por parte das pessoas e por parte de si mesma.
Inicialmente, essa necessidade se baseia em inferências relativas ao campo de experiência dos outros. A criança necessita de aceitação, de ser apreciada, gostada...
Progressivamente, a satisfação dessa necessidade vai-se tornando bilateral, ou seja, o indivíduo gosta de satisfazê-la nos outros e gosta de obter a satisfação desta necessidade através dos outros.
Nas idades mais tenras da criança, ela está em contato com pessoas que são imprescindíveis para sua sobrevivência, inclusive física. Essas pessoas são consideradas como "pessoas-critério". São tão vitais para a criança que, quando demonstram uma consideração positiva por ela, podem converter-se numa força diretiva e reguladora mais forte do que o processo de valorização "organísmica".
Explicando melhor, a tendência que move uma criança a valorizar suas experiências como boas ou más para ela, para seu crescimento, é organísmica, ou seja, é um processo interno, do seu organismo e, por isso mesmo, não precisa passar pela consciência ou por uma escolha "racional".
Mas, quando uma "pessoa-critério" (pai, mãe, ou alguém que cumpra esse papel para ela) explicita uma opinião, um julgamento sobre a experiência que está sendo vivida por uma criança, comumente ela adota essa avaliação externa em detrimento da sua própria. A isso chamamos de "complexo de consideração".
DESENVOLVIMENTO DA NECESSIDADE DE CONSIDERAÇÃO POSITIVA DE SI MESMO
Aos poucos, a criança experimenta satisfações ou frustrações relativas ao EU, que podem ser sentidas independentemente de toda manifestação de consideração positiva dos demais. A isso chamamos de consideração positiva de si mesmo.
Tal necessidade é adquirida das associações de experiências relativas ao EU com satisfação ou frustração da necessidade de consideração positiva.
Como consequência, o indivíduo se converte em sua própria "pessoa-critério".
A consideração positiva de si mesmo tende a se comunicar ao conjunto das experiências que se relacionam com o EU, quer dizer, com a imagem do EU, por "generalização".
Dessa forma, se a criança faz uma avaliação do próprio eu como negativa, essa percepção se generaliza para o seu EU como um todo.
DESENVOLVIMENTO DE UM MODO DE VALORAÇÃO CONDICIONAL
Quando as experiências de si mesmo de um dado sujeito são julgadas por certas "pessoas-critério" como dignas ou não de consideração positiva, as percepções do sujeito em relação a si mesmo se tornam igualmente seletivas.
Segue-se, daí, que as experiências em relação ao EU podem ser buscadas ou evitadas. Passa-se a buscar somente aquelas que são dignas de consideração positiva. A valoração passa a ser condicional e deixa de ser organísmica, já que ser o que se sente como melhor para si mesmo talvez não lhe garanta a aceitação dos demais e de si próprio. A criança passa a introjetar valores externos, que lhe garantam a aceitação por parte dos demais.
Tal atitude surge por não existir mais uma consideração positiva incondicional para consigo mesma. Acredita-se que seja pouco provável que tal atitude possa existir plenamente.
DESENVOLVIMENTO DO DESACORDO ENTRE O EU E A EXPERIÊNCIA
Devido à necessidade de consideração positiva de si mesmo, o indivíduo percebe sua experiência em função das condições a que chegou a se submeter.
a- As experiências que estão de acordo com aquela necessidade são percebidas ou simbolizadas corretamente na consciência;
b- As experiências contrárias àquela necessidade são "selecionadas", "deformadas", para poderem ficar de acordo com ela ou, então, são "interceptadas";
Daí se segue que a experiência leva consigo elementos não identificados e que se referem ao EU e, por isso, nem todas as experiências simbolizam corretamente na consciência, nem se incorporam à noção do EU.
Com a percepção seletiva, estabelece-se certo estado de incongruência ou de desacordo entre o EU e a experiência, e aparece um certo grau de vulnerabilidade e de mau funcionamento psíquico. O indivíduo passa a não ser "sincero" consigo mesmo, com o significado "organísmico" de sua experiência.
OBS.: Tudo isso se produz involuntariamente, como um processo natural e trágico, iniciado na infância.
DESENVOLVIMENTO DE CONTRADIÇÕES NA CONDUTA
O conflito entre o EU e a EXPERIÊNCIA, tal como falamos acima, dá lugar a um conflito análogo a nível da conduta.
a- Certas condutas, que são conformes à noção do EU, mantêm, atualizam e revalorizam o EU, são corretamente simbolizadas na consciência.
b- Outras são deformadas para se fazerem de acordo (conformes) com o EU.
A EXPERIÊNCIA DE AMEÇA E O PROCESSO DE DEFESA
As experiências não conformes à estrutura do EU são reconhecidas ao nível de subcepção (discriminação sem representação consciente).
Se a experiência ameaçadora fosse simbolizada corretamente, ocorreriam:
a- a noção do EU perderia seu caráter unificado;
b- a necessidade de consideração de si mesmo ficaria frustrada;
c- um estado de angústia se apoderaria do sujeito.
Surgem, daí, os processos de defesa que impedem que se produzam esses acontecimentos perturbadores.
Assim, o processo de defesa consiste em:
a- uma percepção seletiva;
b- uma deformação da experiência;
c- uma interrupção parcial ou total de certas experiências.
Como decorrência das defesas, surgem:
a- uma rigidez perceptual (devido à necessidade de deformar certos dados da experiência);
b- uma simbolização incorreta (devido à deformação e à omissão de certos dados);
c- ausência de discriminação ou discriminação perceptual insuficiente.
O PROCESSO DE DESMONORAMENTO E DESORGANIZAÇÃO PSÍQUICA
A teoria da personalidade, formulada até aqui, se aplica, em graus diferentes, a todo o indivíduo.
A seguir, veremos o que ocorre em casos em que há um mau funcionamento e que é perturbador para o sujeito.
1- Se existe um desacordo entre o EU e a EXPERIÊNCIA e se, por um fato crítico, tal desacordo fica revelado de modo brusco e inegável, o processo de DEFESA não terá nenhuma força. O sujeito sente este estado de desacordo ao nível da subcepção e se torna ansioso. O grau de angústia é proporcional à amplitude do setor do EU afetado pela ameaça.
2- Como o processo de defesa não tem força aí, a experiência fica corretamente simbolizada. Ante o CHOQUE desta tomada de consciência, produz-se um estado de desorganização psíquica.
3- Neste estado de desorganização, o indivíduo deve manifestar um comportamento estranho e instável.
Em certos momentos, expressa abertamente as experiências anteriormente negadas ou deformadas pelo processo de defesa; em outros, adota uma atitude de acordo com a estrutura do EU.
Nestas condições, o indivíduo se encontra numa luta constante que se traduz num comportamento incongruente, instável, análogo ao que se denomina personalidade múltipla.
PROCESSO DE REINTEGRAÇÃO
Consiste em produzir um processo que conduza a um restabelecimento de acordo entre o EU e a EXPERIÊNCIA.
Tal processo implica em:
1- Dar condições ao sujeito de:
a- valorar sua experiência de modo menos condicional;
b- aumentar o nível de consideração positiva incondicional de si mesmo.
2- A consideração positiva incondicional, manifestada ao cliente por uma "pessoa-critério" representa um dos meios de realizar estas condições:
a- a comunicação efetiva desta consideração positiva incondicional é possível por meio da compreensão empática;
b- daí surge uma redução e inclusive a abolição das condições que afetam
sua valoração;
c- com isso, aumenta a consideração positiva incondicional de si mesmo;
d- se ocorrer a compreensão e a redução, o nível de angústia diminui, o processo de defesa se desfaz, as experiências se simbolizam corretamente e são assimiladas à estrutura do EU.
3- Quando 1 e 2 ocorrem, há como consequência:
a- diminuição da sensibilidade em relação às experiências ameaçadoras;
b- a defesa é menos frequente;
c- aumenta o acordo entre o EU e a EXPERIÊNCIA;
d- aumenta a consideração positiva dos demais;
e- aumenta a consideração positiva de si mesmo;
f- a conduta é guiada mais pela valoração organísmica;
g- o indivíduo funciona cada vez melhor.
RELAÇÕES FUNCIONAIS RELATIVAS À TEORIA DA PERSONALIDADE
No momento atual, nenhuma teoria da personalidade pode expressar relações funcionais entre as variáveis que compõem sua estrutura, em termo de equações.
Contentamo-nos com o estabelecimento de certas relações muito gerais e qualitativas. Baseados nessas relações, construímos o nosso sistema teórico e o submetemos à prova.
O FUNCIONAMENTO ÓTIMO DA PERSONALIDADE
Quando as condições favorecem o funcionamento pleno, o indivíduo apresenta as seguintes características:
1- Está "aberto" à sua experiência (não há condutas defensivas);
2- Suas experiências são acessíveis à consciência;
3- Suas percepções são tão corretas como o permitem os dados de sua experiência;
4- A estrutura do EU concorda com a experiência;
5- A estrutura do EU é uma gestalt fluida, modificável pela assimilação de novas experiências;
6- O indivíduo é o centro da valoração de sua experiência; e sua valoração é contínua e organísmica;
7- A valoração não está submetida a condições externas (há uma consideração positiva incondicional para si mesmo);
8- É adaptado à situação e age de forma criadora nas situações novas;
9- Descobre que sua capacidade de valoração é uma fonte de direção digna de confiança;
10- Tendo em conta o caráter positivo de um ponto de vista afetivo, da consideração positiva recíproca, este indivíduo vive com os OUTROS na melhor harmonia possível.
NOTA: A personalidade que funciona plenamente é a que flui constantemente, que está em contínua mudança e cujas condutas específicas não se prestam à previsão. A única previsão que se poderia fazer sobre sua conduta é que esse indivíduo manifestará, em qualquer ocasião, um grau perfeito de adaptação criadora e que se comprometerá em um processo contínuo de atualização.
ILUSTRAÇÃO DE UMA APLICAÇÃO DA TEORIA DA TERAPIA
Desde o meu primeiro contato com as ideias de Rogers, suas pesquisas, sua teoria da personalidade e da terapia, pensei que seria interessante "radicalizar" algumas de suas ideias e transformar alguns conceitos em hipóteses a serem experimentadas, através de meios pouco ortodoxos em se tratando de métodos psicoterápicos.
Um conceito que sempre me chamou atenção foi o de self e sua construção. Por isso, a partir desse conceito, organizei alguns trabalhos e, entre eles, uma monografia, que representou meu trabalho final num curso de pós-graduação na UFF.
A construção do SELF ocorre ao longo da vida de uma pessoa, ou seja, ao longo de sua história pessoal.
Para muitas pessoas que estão acostumadas a lidar com a Abordagem Centrada na Pessoa e com a Terapia Centrada no Cliente, como propostas de ação que valorizam o momento aqui e agora da relação terapêutica, que reconhecem que a experiência vivida num processo terapêutico não se presta muito a ser algo congelado no tempo; quando a visão arqueológica da história do cliente fica em segundo plano, quando se busca vivenciar o momento exato em que ele experiencia seus sentimentos no instante mesmo em que eles acontecem... sei que falar em história do cliente pode parecer estranho.
Entretanto, é preciso que as pessoas, que possam estar interessadas em conhecer o que ando realizando, tenham um pouco de curiosidade e, mais do que isso, estejam abertas e sejam flexíveis para não partirem de conceitos preconcebidos sobre o que é ou não ACP, Rogeriano, ou algo assim.
Escrevi dois trabalhos, focalizando História/Psicoterapia/Self.
No primeiro, "Um Método Histórico e Uma Psicoterapia Centrada na Pessoa", (monografia apresentada à UFF, em 1995), cuja proposta foi apresentar uma aproximação entre o método da História, tal como é proposto por Paul Veyne, e o que ocorre na relação terapeuta-cliente.
No segundo, "Self: sua construção, desconstrução e autorreconstrução", apresentei um estudo mais dedicado a esse conceito teórico. Nele, procurei encontrar meios que pudessem ajudar o cliente a compreender como o seu Self foi construído ao longo de sua história.
Para isso, utilizei um método denominado Recapitulação Progressiva da História Pessoal. Nele, pretende-se, usando de recursos de estados alterados de consciência, buscar uma sequência significativa de lembranças do cliente em relação às percepções que foi obtendo de seu EU, nos seus contatos com as pessoas e os momentos significativos da sua vida, desde o período pré-natal, em que as lembranças são "viscerais, sensoriais, musculares..." até o momento atual vivido pelo cliente.
Trata-se de um método alternativo, oferecido a alguns clientes que apresentam uma historia pessoal que justifique sua utilização. Ele, como sugere, ajuda na compreensão do modo como o self daquela pessoa foi construído. A partir disso, o cliente começa a perceber como deixou de confiar na sua própria avaliação e a "desconstruir" seu self, ao mesmo tempo que experimenta uma autorreconstrução do mesmo.
É um método genuinamente "centrado no cliente", pois todo o processo ocorre no interior de quem o vivencia, sendo o terapeuta somente um auxiliar/facilitador nessa busca de compreensão do modo como ele chegou a organizar sua personalidade, as incongruências que viveu ao longo de sua história, e aquelas, ainda presentes nele, responsáveis por suas dificuldades psicológicas atuais.
XII- A PESQUISA NA TCC
A PCC, como já falamos, talvez seja um dos enfoques teóricos mais dedicado à pesquisa.
Acredito ser desnecessário, tendo em vista os propósitos deste trabalho, relacionar aqui todas as pesquisas feitas, suas conclusões, autores, etc.
Aos interessados por essa parte, recomendo a leitura dos capítulos referentes às pesquisas, nas referências bibliográficas que mencionamos no final deste documento.
É bom ressaltar que resultados interessantes poderão ser encontrados principalmente nos livros: Psicoterapia Centrada no Cliente, On Becoming a Person, Psicoterapia e Relações Humanas e Carl R. Rogers: de la psychothérapie a l ‘enseignement.
XIII- APLICAÇÕES DO ENFOQUE CENTRADO NO CLIENTE
Como na Psicoterapia Centrada no Cliente, a relação terapeuta/cliente foi sempre considerada um tipo especial do relacionamento em geral, e também como as mudanças e o desenvolvimento da terapia sempre foram vistos como consequência do crescimento e do desenvolvimento em cada "encontro" humano, obviamente esta abordagem terapêutica se expandiu, em suas teorias, e passou a abranger estudos dos fenômenos observáveis para além daqueles que ocorriam nos encontros entre o psicólogo e seu cliente nas consultas individuais.
GRUPO INTENSIVO
Pessoas procuram grupos terapêuticos por estarem com problemas ou por quererem ter uma experiência de crescimento, conhecimento sobre si mesmas e sobre os outros.
A Abordagem Centrado no Cliente se mostrou muito aplicável aos grupos de encontro, como também a grupos terapêuticos.
Em outras palavras, essa separação que fiz entre grupos de encontro e grupos terapêuticos é muito sutil.
Qualquer grupo tem em si um potencial terapêutico. Todavia, o que considero diferenciar um do outro é basicamente o tempo de sua existência e sua proposta.
Os grupos terapêuticos não têm um tempo de vida preestabelecido. Eles existirão por 1, 2, 3 ou mais anos.
Os grupos de encontro têm como uma de suas características a previsão de seu início e seu término. O grupo de encontro é mais um GRUPO INTENSIVO, embora tenha em si um potencial terapêutico incalculável. Destina-se mais a pessoas que tenham uma problemática existencial que não interfere de forma intensa, ou altamente paralisadora, no seu comportamento.
Uma pessoa destacadamente neurotizada, com problemas acentuados que a impedem de viver uma vida a nível suportável, uma pessoa altamente desestruturada em sua personalidade, pode-se beneficiar de um grupo de encontro, mas sabemos que poderá receber mais ajuda num grupo mais permanente ou numa terapia individual.
Sobre grupos de encontro, podemos ler os trabalhos de Rogers (1970), Caulson (1972) e Meador (1971), e ver os filmes, entre os quais temos: Journey Into Self, (1968); Because That’s My Way, (1971), Em busca de si mesmo...
APLICAÇÃO EM EDUCAÇÃO
Os conceitos básicos, a teoria e a metodologia da terapia centrada no cliente são altamente aplicáveis à Educação.
Na terapia individual, é criado um clima no qual o cliente aprende sobre si mesmo. Da mesma forma, o educador pode criar um clima no qual aprendizagens cognitivas e afetivas ocorram em sala de aula.
A aplicabilidade não fica encerrada nos limites da escola do ensino fundamental.
Todos os níveis de escolaridade podem ser beneficiados, quando o professor for uma pessoa que possua em si certas características atitudinais, tais como as que descrevemos anteriormente e que consideramos como necessárias e suficientes para pôr em marcha o processo terapêutico.
Sobre esse tema, temos um livro muito interessante do próprio Rogers, traduzido para o português com o título Liberdade Para Aprender.
Sugerimos, todavia, às pessoas interessadas no assunto, que, antes de ler essa obra, leiam outras como Psicoterapia Centrada no Cliente (Rogers), Teoria da Personalidade e Aprendizagem Centrada no Aluno (H.Justo).
Como leitura adicional, seria bom se estudássemos o livro de Miguel de la Puente, Carl Rogers de la Psicoterapia a l´Enseignement.
Muitas pessoas leram apenas a obra de Rogers (Liberdade para Aprender) e não conseguiram entender a mensagem mais profunda daquele livro, por falta de embasamento e conhecimento das ideias da Terapia Centrada no Cliente. Ficaram, no final, com uma noção bastante limitada sobre a aplicabilidade dessa teoria à Educação.
Para não nos alongarmos demais, diríamos que as ideias lançadas pela TCC, por terem em seu bojo princípios básicos de relacionamento humano, mostraram-se aplicáveis a qualquer situação em que se pretenda facilitar o aparecimento de relacionamentos humanos construtivos. É fácil, pois, imaginar o grande número de situações e ambientes, em que o enfoque CC tem possibilidade de trazer grandes contribuições.
XIV-CONCLUSÕES
A seguir, citaremos a tradução por inteiro do texto contido no capítulo 30, do livro de Kaplan e Sadock, páginas 1842/3, Ed. 1975.
Seria difícil melhorar o quadro que nos deu Maeder (1973) dessa abordagem e seu impacto teórico, filosófico e institucional:
A base teórica da terapia Centrada no Cliente é uma fé na ‘racionalidade’ quase que perfeita do crescimento humano sob condições ideais.
A tendência atualizante no homem é uma força muito grande que tem seu próprio ritmo e direção.
A tarefa do terapeuta é facilitar a consciência e a confiança do cliente em seus próprios processos atualizantes.
O achado mais básico da terapia centrada no cliente é a das atitudes do terapeuta, que cria um ambiente ideal no qual o cliente possa se permitir crescer e se desabrochar. O processo da terapia é verdadeiramente centrado no cliente, cuja experienciação interna dita o ritmo e a direção do relacionamento terapêutico. A atitude de confiança descompromissada nos processos de crescimento dos indivíduos é tanto um sistema de valores quanto um guia para a terapia.
Como tal é contrária aos valores vigentes das escolas, da família, da igreja, dos negócios e outras instituições deste país. A atitude que predomina nessas instituições é de delimitação cautelosa e de um ceticismo implícito do processo de crescimento humano.
Basta que se imagine uma família ou escola que adote uma atitude de confiança descompromissada nos processos de crescimento de seus membros numa atmosfera de autenticidade, carinho e compreensão, para que se possa ter uma idéia do contraste que isso representa em relação à maioria das famílias e escolas.
É possível que a influência da terapia centrada no cliente se faça sentir em escala maior nas instituições desse país no futuro, talvez mais do que em psicoterapia. Isto já é verdadeiro até certo ponto. A quantidade de pessoas em educação e religião, por exemplo, que estão adotando esses princípios parece aumentar a cada ano.
A tentativa de conclusão que se poderia esboçar é que três décadas de escritos, pesquisas e terapia centrada no cliente oferecem um depoimento sobre um sistema de valores que advoga confiança no crescimento e desenvolvimento dos indivíduos sob as condições referidas.
Como tal, a terapia centrada no cliente oferece um convite atraente, não só para o terapeuta numa relação cliente-terapeuta, mas também para grupos humanos de todos os credos, formas e tamanhos.
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