ALCANCES E LIMITES DA NEUROBIOLOGIA DAS EMOÇÕES E DOS SENTIMENTOS. Lima, Orion Ferreira. Mestre em Filosofia pelo Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UNESP - campus de Marília. orionferreira@yahoo.com.br
Resumo
Neste artigo nos propomos analisar, à luz do pensamento de Damásio, os alcances e limites da neurobiologia das emoções e dos sentimentos. Inicialmente discutiremos em que medida as emoções influenciam nossas decisões racionais.
Em organismos complexos a tomada de decisões, diante de situações também complexas, exige áreas evoluídas do cérebro, como por exemplo, o neocortex.
Contudo, áreas “antigas” do cérebro, como o sistema límbico, são também importantes na tomada de decisões. Não obstante a toda maquinaria cerebral, cabe-nos questionar se seriam os processos biológicos, condição necessária e suficiente para se entender a experiência de uma emoção e de um sentimento.
Tais questões nos conduzem inevitavelmente ao problema da consciência. A idéia do corpo como sustentáculo do eu nos levarão a um paradigma representacional diferente do modelo clássico de representação.
Tentaremos mostrar que os esforços atuais das neurociências em descobrir os mecanismos neurais envolvidos na constituição da experiência de se ter emoções e sentimentos proporcionaram à indústria farmacêutica uma corrida em busca de substâncias capazes de minimizar a dor e, conseguintemente aumentar o prazer.
Contudo, essas descobertas não nos permitiram explicar como temos a experiência dos sentimentos e das emoções em nossa vida.
Introdução
O presente artigo tem por finalidade discutir questões relativas à neurobiologia das emoções e dos sentimentos. Inicialmente nos propomos analisar em que medida as emoções influenciam a tomada de decisões racionais.
Em organismos complexos a tomada de decisões ante a situações também complexas exigem áreas “modernas” e mais evoluídas do cérebro, o neocortex. Contudo, não há uma sobreposição de áreas “modernas” sobre áreas “antigas” do cérebro. Ambas são importantes na tomada de decisão.
Nesse contexto, Damásio diferencia as emoções primárias das secundárias. As primeiras podem ser entendidas como sinônimo de “inatas” ou pré-organizadas e se articulam por meio de uma rede intricada do sistema límbico. As emoções secundárias, por sua vez, necessitam não somente do sistema límbico, mas também de outras estruturas mais evoluídas como o córtex pré-frontal, o sistema endócrino e peptídeo.
Não obstante a toda essa maquinaria neural, cabe-nos questionar se seriam os processos biológicos, condição necessária e suficiente para se entender a experiência de uma emoção. Ao falarmos de “experiência de emoções” referimo-nos inevitavelmente ao problema da consciência.
O filósofo David Chalmers (secção 2), postula dois tipos de problemas sobre a consciência: o problema fácil, e o problema difícil. O primeiro pode ser explicado por mecanismos computacionais ou neurais, como por exemplo, a habilidade para discriminar, categorizar, reagir a estímulos; comportamento estes que podem ser facilmente simulados em uma máquina.
O segundo problema é mais difícil, pois situa-se em torno da experiência qualitativa sentida pelo sujeito. A grande questão envolvida nesse problema é saber por que quando nosso sistema visual ou auditivo se empenha em um processamento informacional, nós temos concomitantemente a experiência auditiva ou visual. Não obstante a todos os recursos disponíveis não somos capazes de dar uma resposta satisfatória a essa questão. Por outro lado, o fato de não conseguirmos obter uma solução ao “hard problem” não anula nossas esperanças de um dia poder encontrá-la.
A idéia do corpo como sustentáculo do eu nos conduzirão a um paradigma representacional diferente do modelo clássico que concebe a existência de um homúnculo no cérebro que recebe sinais das mais variadas estruturas do corpo. Na secção 3, demonstraremos que a concepção de mapeamento proposta por Damásio acontece de maneira dinâmica, isto é, se renova constantemente, de modo que podemos ter um acesso “on-line”do que está acontecendo no organismo a cada momento que ocorre uma emoção.
Na tentativa de descobrir quais os mecanismos neurais envolvidos na constituição dos sentimentos e das emoções, que a indústria farmacêutica empenha todos seus esforços no sentido de encontrar drogas capazes de minimizar a dor e aumentar o prazer. Contudo, a descoberta de tais substâncias não nos permite explicar o que sentimos e como sentimos. Uma coisa é sabermos que certos tipos de substâncias podem provocar determinados tipos de sentimentos e emoções e outra bem diferente é conhecer os mecanismos pelos quais se consegue alterar essas mesmas emoções e sentimentos.
1 Neurobiologia das emoções e dos sentimentos
Muitos dos organismos possuem em seu repertório biológico seleções de respostas inconscientes. Mesmo entre organismos simples destituídos de um sistema nervoso plenamente desenvolvido, essas seleções lhes garantem sobreviver em meio aos perigos e a manter um equilíbrio satisfatório a fim de preservar a própria vida.
No entender de Damásio (1996), essas seleções equivalem a uma elementar tomada de decisão, que se manifesta por meio de correlações neurais. Em organismos complexos, a tomada de decisão ante as situações também complexas, necessita de áreas “modernas” do cérebro (no sentido evolutivo), assim denominadas neocórtex. Assim, haverá uma correlação entre as divisões e complexificações do neocórtex e a complexidade e imprevisibilidade do meio no qual os organismos vivos estão situados.
Segundo Damásio (1996, p. 156), as descobertas de John Allman revelaram que:
[...] independente do tamanho do corpo, o neocórtex dos macacos que se alimentavam de frutos é maior que o daqueles que se alimentavam de folhas. Os macacos que se alimentam de frutos tem de possuir uma memória mais rica para que possam recordar quando e onde procurar frutas comestíveis, para que não encontrem árvores sem frutos ou com fruta estragada. Seus neocórtices maiores sustem a maior capacidade de memória fatual de que necessitam.
Diante desses fatos, poderíamos falar que há alguma discrepância entre as estruturas cerebrais velhas e modernas?
Damásio acredita que as estruturas velhas são encarregadas de regular os degraus subterrâneos de nossa mente, enquanto que o “novo cérebro” disporia com sensatez todas as nossas decisões. “Em cima, no neocórtex, encontrar-se-ia a razão e a força de vontade, enquanto que embaixo, no subcórtex, se encontraria as emoções e todas aquelas coisas fracas e carnais.” (DAMÁSIO, 1996, p. 157).
Mas será que as emoções não interferem na tomada de decisões de modo afetar a manutenção da vida em organismos complexos? Damásio (1996) afirma que em muitos casos isso seja possível, por exemplo, não podemos desprezar o conselho de nossos pais e avós que sempre nos dizem, “quando tiver que resolver um problema, faça-o de cabeça fresca”, ou seja, livre dos assaltos emocionais. Contudo, há situações em que as emoções são essenciais para uma tomada de decisão eficaz.
Muitos estudos indicam que o segredo da longevidade não está somente na existência de estruturas biológicas responsáveis pelo raciocínio e desenvolvimento, mas também em outras estruturas subjacentes como as do hipotálamo que, como sabemos, situa-se na parte inferior do cérebro.
Além do mais, alguns comportamentos dependem tanto do “antigo cérebro” como do “novo cérebro”, combinando assim estruturas e funções diferenciadas. Desse modo, as emoções e os sentimentos desempenham um papel relevante na tomada de nossas decisões racionais. Uma pessoa destituída desses elementos não pode decidir-se satisfatoriamente.
Em sua importante obra, “Principles of Psychology”, publicada no início do século XX, James afirma:
É-me muito difícil, se não mesmo impossível, pensar que espécie de emoção de medo restaria se não se verificasse a sensação de aceleração do ritmo cardíaco, de respiração suspensa, de tremor dos lábios e de pernas enfraquecidas, de pele arrepiada e de aperto no estomago. Poderá alguém imaginar o estado de raiva e não ver de perto em ebulição, o rosto congestionado, as narinas dilatadas, os dentes cerrados e o impulso para ação vigorosa, mas, ao contrário, músculos flácidos, respiração calma e um rosto pálido? (JAMES, W., 1905 apud DAMÁSIO, 1996, p.159).
Com essa citação, James nos chama à atenção para a idéia de que há um mecanismo básico em que determinados estímulos do meio acionam reações específicas do corpo.
Não obstante, na concepção de Damásio, em muitos momentos da vida do homem, como ser social, deflagram-se as emoções após um processo mental de avaliação não automática, mas sim voluntária, ou seja, há um amplo espectro de estímulos que se associam aos estímulos inatamente selecionados.
Essas reações são avaliadas e o que tudo indica segundo Damásio, algumas emoções possuem características pré-organizadas (as emoções experimentadas na infância do choro, dos gritos, etc, são exemplos disso) Por outro lado, existem “emoções secundárias” que se caracterizam por serem construídas interpostas às “emoções primárias”, de modo a serem vivenciadas na fase adulta.
Vejamos com atenção o que Damásio quer nos dizer com o termo “emoções primárias”
Em termos gerais, as “emoções primárias” envolvem disposições inatas para responder a certa classe de estímulos. Por exemplo: somos como que inatamente “pré-programados” a sentir medo de animais de grande porte, ou a determinado tipo de movimento, como por exemplo, das cobras e de outros répteis.
Essas características seriam processadas pelo sistema límbico (amígdala). A emoção correspondente ao medo resulta da ativação de núcleos neurais no límbico, capaz de representar dispositivamente o estado do corpo. Não é necessário o reconhecimento de um animal específico ante os olhos, mas apenas a sutileza de suas características, de maneira que os córtices sensoriais iniciais fazem uma classificação representando no corpo o sinal de perigo.
Em organismos evoluídos esse sistema garante uma coerência entre o estímulo que deflagrou a emoção e seu impacto no organismo, ou seja, a sensação de uma emoção.
De fato que não haveria necessidade do organismo, no ato de interagir com o objeto causador da emoção, se conhecer nesse processo relacional, uma vez que há maneiras automáticas e adaptativas de responder a esses estímulos. Contudo, com a emergência de uma consciência, os organismos vivos alcançaram mecanismos seguros de sobrevivência.
Com efeito, nos afirma Damásio (1996, p. 161):
[...] se vier, a saber, que o animal ou situação X causa medo, você tem duas formas de se comportar em a X. A primeira é inata, você não a controla; além disso, não é especifica de X: pode ser causada por um grande número, de seres, objetos e circunstâncias. A segunda forma baseia-se na sua própria experiência e é especifica de X. O conhecimento de X permite-lhe pensar com antecipação e prever a probabilidade de sua presença num dado meio ambiente, de modo a conseguir evitar X antecipadamente, em vez de ter de reagir a sua presença numa emergência.
Ao utilizar a terminologia “sentir os estados emocionais”, Damásio se refere à consciência das emoções. Essa permite com que as respostas, baseadas na história de cada indivíduo ao interagir com o meio, sejam versáteis.
Qual seria a base neural na qual repousariam as “emoções primárias?”
De acordo com Damásio (1996), as emoções primárias, entendidas aqui como sinônimo de inatas, pré-organizadas, se articulam em uma rede intrigada do sistema límbico, onde a amigdala e o cíngulo assumem papéis significativos.
Muitas foram às pesquisas empíricas envolvendo a influência da amigdala nos processos emocionais. Damásio nos afirma que os trabalhos de Heinrich Kluver e Paul Bucyl (1973) já demonstravam que pacientes submetidos à lobotomia temporal apresentavam embotamento afetivo significativo, além de outros transtornos emocionais, logo após a intervenção cirúrgica.
Em 1932, Breckner, um famoso neurologista da Columbia University desenvolveu um trabalho interessante onde se relacionava o córtex frontal com as emoções.
O doente A, por ele denominado, apresentou um quadro clínico de tumor cerebral, mais precisamente um meninginoma. O tumor crescia e comprimia os lobos frontais. Breckner retirou o tumor com sucesso, porém, juntamente com o tumor, retirou-se também boa parte dos lobos frontais esquerdo e direito. No lado direito retirou-se todo o córtex que se localizava em frente das áreas responsáveis pelo movimento. Os córtices na superfície ventral (orbital) e na parte inferior da superfície (mediana) também foram removidos.
Após a cirurgia, o paciente A gozava de boa saúde. A relação espaço-temporal permaneceu íntegra assim como a memória convencional. No âmbito da linguagem não houve alteração. Na esfera racional, o paciente era capaz de fazer cálculos e até mesmo jogar xadrez com muita habilidade. Qual o problema com o paciente A?
O problema estava na vida afetiva. Certo sinal de embotamento se evidenciava sempre que ele propunha se relacionar com outras pessoas. Não havia nenhum sentimento de empatia pelo outro, nem ao menos um sinal de vergonha, tristeza ou angústia diante de tudo aquilo que lhe havia acontecido. Em suma, o que ficou comprometido em nosso paciente A foi sua capacidade de decidir por meio de ações mais vantajosas.
Como podemos perceber as “emoções primárias” por si só não são capazes de explorar a complexidade dos processes e comportamentos emocionais. Com efeito, nos afirma Damásio (1996, p. 163):
Creio, no entanto, que em termos do desenvolvimento de um indivíduo seguem-se mecanismos de emoções secundárias que ocorrem mal começamos a ter sentimentos e formam ligações sistemáticas entre categorias de objetos e situados, por um lado, e, emoções primárias por outro. (Grifo do autor).
As “emoções secundárias”, por outro lado, necessitam não somente do sistema límbico, mas também de outras estruturas anatômica e fisiologicamente mais evoluídas. Essas estruturas são necessárias à produção de “emoções secundárias.” Considere a seguinte situação:
Você está no aeroporto à espera do seu vôo e de repente encontra um amigo que há muito tempo não via. Partindo do princípio de que você é uma pessoa normal, obviamente você sentirá emoções: taquicardia inesperada, talvez vontade de chorar, ou um “aperto” no estômago, uma alegria indizível, suas mãos poderão ficar frias e úmidas, entre outras manifestações físicas e psicológicas. A questão é: o que acontece, em termos neurobiológicos, quando se experimenta essa emoção? E mais, o que significa “experienciar uma emoção?”.
Como dissemos anteriormente, no momento da experiência da emoção, o organismo se vê em um estado de mudança, tanto em termos biológicos quanto psicológicos. O organismo como um todo se empenha em buscar, de uma maneira rápida e segura, um equilíbrio funcional, ou em outras palavras, uma homeostase.
Em se tratando de nosso exemplo, o processo inicia-se com considerações deliberadas em relação a esta pessoa em particular: afinidades com a pessoa, valor que ela representa etc. Muitas dessas considerações acontecem em um nível imagético, não-verbal, enquanto outras podem assumir um conteúdo verbal: as palavras, o timbre de voz, lembranças de discursos, acontecimentos. A base neural de todo esse substrato representável ocorre em córtices sensoriais iniciais (visual, auditivo, olfativo).
Em nível inconsciente, redes presentes no córtex pré-frontal reagem como que automaticamente a todos os sinais resultantes dos processos imagéticos descritos. Esta resposta pré-frontal só é possível graças à existência de representações dispositivas adquiridas e não inatas, isto é, aquilo que no decorrer da história de vida de cada um foi-se acumulando e formando, de modo a construir a individualidade.
Damásio (1996) acredita que a resposta das disposições pré-frontais (inconsciente e automática) tem como base neural a amígdala e o cíngulo. Estas por sua vez, ativam os núcleos do sistema nervoso autônomo, enviando sinais ao “sistema inato”, de modo a alterar significativamente a musculatura esquelética.
O sistema endócrino e peptídeo são ativados, alterando o estado do organismo por meio de uma série de ações químicas. Por final, há uma ativação dos núcleos dos neurotransmissores não específicos, situados no tronco cerebral e prosencéfalo basal, que liberam “informações químicas” em regiões do telencéfalo (gânglio basal e córtex cerebral).
Como podemos observar, as mudanças ocorridas nas mais diversas estruturas biológicas produzem certo tipo de “estado emocional do corpo”. Por outro lado, a ativação dos núcleos dos neurotransmissores não específicos parece não provocar uma reação no corpo, propriamente dita, mas num determinado grupo de estruturas do tronco cerebral, responsável pela regulação do corpo. Nas palavras de Damásio (1996, p. 167): “Tem um impacto muito importante no estilo e eficiência dos processos cognitivos e constitui uma via paralela para a resposta emocional.”
Contudo, resta-nos ainda tentar responder a seguinte questão: Seriam os processos biológicos, condição necessária e suficiente para se entender a “experiência de uma emoção” ou de “sentir uma emoção”?
É bem verdade que o aspecto relativo à conservação não depende necessariamente da consciência, pois como vimos há seres unicelulares que lutam por se manterem na existência e, contudo, possuem uma estrutura neurobiológica rudimentar, mas sabemos também que o surgimento de um cérebro evoluído e conseqüentemente de uma consciência permitiu às espécies uma maior vantagem no processo de seleção natural.
Vimos também que a diferença entre emoções primárias e secundárias é que nas primeiras as mudanças biológicas ocorrem em um nível inconsciente, ao passo que as secundárias caracterizam-se pela constatação de um sentimento.
Desse modo, nos parece que o conceito de emoção, precisamente as “emoções secundárias”, encontra-se relacionado ao conceito de consciência, uma vez que, para Damásio (1996, p. 168) “existem outras alterações do estado do corpo que só são perceptíveis pelo dono desse corpo.”
2 Além da simples sensação corporal
Para o filósofo David Chalmers (1995) “There is no just one problem of consciousness. “consciousness” is an ambiguous term[...]”1
Para Chalmers (1995), argumenta que há dois tipos de problemas quando falamos sobre consciência: o problema fácil e o problema difícil. O primeiro pode ser explicado por mecanismos computacionais ou neurais. Por exemplo: a habilidade para discriminar, categorizar e reagir a estímulos do meio-ambiente; a habilidade de um sistema para acessar seus próprios estados internos, etc. Todos esses problemas, na concepção de Chalmers, podem ser descritos e explicados por meio de recursos computacionais ou neurais. Por outro lado, o problema difícil da consciência se refere justamente ao problema da experiência consciente.
No processo de pensar e perceber alguma coisa há mecanismos de processamento de informação neurofísicos e neuroquímicos envolvidos, mas há também um aspecto subjetivo. Por exemplo: ao olharmos para uma rosa vermelha acontece uma série de mudanças processuais e informacionais em nosso organismo que podem ser explicadas a nível físico. Mas há, além disso, também a experiência do vermelho que é sentida pelo indivíduo. Com efeito, nos afirma Chalmers (1995, p. 3)
When we see, for exemple, we experience visual sensation: the felt quality of redness, the experience of dark and light, the quality of depth in a visual field. Other experiences go along with perception in difference modalities: the sound of a clarinet, the smell of mothballs. Then there are bodily sensations, from pains to orgasms, mental images that are conjured up internally; the felt quality of emotion, and the experience of a stream of conscious thought. What unites all of these states is that there is something it is like to be in them. All of them are states of experience. 2
Toda nossa discussão situa-se em torno da experiência qualitativa sentida pelo sujeito. Na perspectiva de Chalmers, o grande problema é descobrir porque que quando o nosso sistema visual ou auditivo se empenha em um processamento informacional nós temos concomitantemente a experiência auditiva ou visual. Apesar de todos os recursos oferecidos hoje pelas neurociências não somos capazes de dar uma resposta satisfatória a esta questão.
Consideremos a seguinte experiência de pensamento sugerida pelo filósofo Frank Jackson:
Mary é uma neurocientista do século XXIII e é uma especialista renomada em processos cerebrais responsáveis pela visão da cor. Ela conhece tudo sobre cor: os processos psicofísicos relacionados à cor, ela também sabe como o cérebro discrimina os estímulos, bem como integra a informação. Conhece tudo sobre a cor, o conjunto de ondas no espectro da luz entre muitas outras coisas. Não obstante, Mary passou toda sua vida trancada em uma sala branca e preta, sem jamais ver cor alguma. Mary nunca vivenciou ou experimentou, por exemplo, o vermelho.
Ao que nos parece, existem fatos sobre a experiência consciente que não podem ser explicados somente à luz de interações neurais. Estaria, então, toda nossa indústria, fadada ao fracasso? Nas palavras de Chalmers, não: “Notavelmente, a experiência subjetiva parece emergir de um processo físico, mas não temos nenhuma idéia de como ou por que é assim.” (CHALMERS, [2003], p.43).
O fato de não termos ainda encontrado uma resposta satisfatória ao “hard problem”, não anula em hipótese alguma nossa esperança em encontrar uma explicação científica.
Como já dissemos, a consciência contribuiu de maneira significativa à perpetuação e conservação da vida, uma vez que possibilitou ao homem construir um conjunto de regras e normas com o objetivo de alcançar, o máximo possível, o equilíbrio.
Com efeito, nos afirma Penrose (1989, p. 412 apud ECCLES, 1994, p. 66):
O que é que faz verdadeiramente a consciência? ... Que podemos fazer graças ao pensamento consciente que não pode ser feito inconscientemente?... De certa maneira, temos a necessidade da consciência a fim de tratarmos de situações em que temos de formar novos juízos, em que as regras não foram estabelecidas à partida. É muito difícil ser exato quando a distinção entre os tipos de atividade mental que aparecem requerer a consciência e os que não a requerem.
A capacidade da mente em formular juízos constitui, na visão de Penrose, a marca essencial da consciência, ou seja, a capacidade de diferenciar o verdadeiro do falso, contemplar e distinguir a beleza da fealdade.
3 O corpo como substrato da consciência
A idéia do corpo como sustentáculo do eu deve guiar mais uma vez nossa discussão. Seguindo os passos de Damásio conseguimos formular o conceito do que seja uma emoção, isto é, a combinação de todo um processo de avaliação mental. Para ele, esse processo pode ser:
[...] simples ou complexo, com respostas dispositivas a esse processe, em sua maioria dirigida ao corpo propriamente dito, resultando num estado emocional do corpo, mas também dirigida ao próprio cérebro (núcleos de neurotransmissores no tronco cerebral, resultando em alterações mentais adicionais) (DAMÁSIO, 1996, p.169).
A capacidade de reconhecer essas alterações “mentais adicionais” constitui o pano de fundo das emoções. No momento em que vivenciamos algum tipo de emoção nosso corpo sofre alterações que são ora percebidas por um observador externo (por exemplo o rubor de nossa pele, contrações da musculatura facial, o olhar de pânico, entre outros), ora sentida por nós mesmos, por exemplo às contrações gastrintestinais e taquicardia. Independentemente do tipo de alteração que soframos, o cérebro sinaliza todas essas modificações por meio da existência de nervos periféricos que carregam impulsos elétricos pela pele. As estruturas límbicas e os córtices somatossensoriais situados nas regiões insular e parietal são responsáveis por obter uma imagem do que acontece com o organismo durante uma emoção.
Diferentemente do modelo representacional clássico que concebe a existência de um homúnculo no cérebro que recebe sinais das mais variadas estruturas do corpo, a concepção de mapeamento proposta por Damásio acontece dinamicamente, isto é, se renova constantemente, de modo a ser possível, utilizando uma metáfora computacional, termos um acesso on-line do que está acontecendo no organismo a cada momento que ocorre uma emoção. Há também alterações complexas de natureza bioquímica envolvidas no processo de sentir uma emoção, contudo, este não é objeto de nosso presente trabalho.
Muitas dessas alterações corporais são sentidas ou vivenciadas como pertencentes ao nosso organismo. A experiência das alterações corporais associadas a conteúdos cognitivos específicos é o que Damásio denomina sentimento. De acordo com Damásio:
Se uma emoção é um conjunto de alterações no estado do corpo associada a certas imagens mentais que ativaram um sistema cerebral especifico, a essência do sentir de uma emoção é a experiência dessas alterações em justaposição com as imagines mentais que iniciaram o ciclo. (DAMÁSIO, 1996, p.175).
Damásio acredita que para surgir um sentimento é necessária uma justaposição de uma imagem do corpo com a imagem de alguma coisa. O que Damásio quer nos dizer com o conceito de justaposição?
Para Damásio (1996), a imagem do corpo propriamente dita emerge após a imagem dessa “alguma coisa”. Em termos neurais, essas imagens se mantêm separadas, não no sentido cartesiano de se opor duas substâncias, de um lado a corporal e do outro a mental, mas de uma combinação. Com efeito, nos afirma Damásio (1996, p. 177):
A idéia de que o “qualificado” (um rosto) e o “qualificador” (o estado corporal justaposto) se combinam, mas não se misturam ajuda a explicar porque é possível sentirmo-nos deprimidos quando pensamos em pessoas ou situações que de modo algum significam tristeza ou perda, ou nos sentimos animados sem razão alguma imediata que a explique.
Há também outro aspecto importante a ser sinalizado. Apesar de existir uma série de componentes essenciais dos sentimentos, em temos cognitivos e neurais, o problema de saber como sentimos um sentimento permanece em aberto.
Acreditamos que as correlações entre o estado do corpo e as mais diversas regiões cerebrais são importantes, porém, não explicam como de fato sentimos o sentimento, mas nos apontam um caminho. Segundo Damásio (1996, p. 178): “A recepção de um conjunto amplo de sinais sobre o estado do corpo nas zonas cerebrais apropriadas é o começo necessário, mas não suficiente para os sentimentos serem sentidos.”
Este talvez seja o “Hard Problem” dos sentimentos. Para Damásio (1996) sabemos que um sentimento em relação a um determinado objeto funda-se numa subjetividade da percepção do objeto e do estado corporal produzido pelo objeto bem como as alterações em nível do pensamento durante todo o processo. Como podemos perceber, nos é tentador separar de um lado a subjetividade e do outro as manifestações corporais. Este é com certeza o ranço metafísico deixado por Descartes ao pensamento ocidental. Nossa tentativa é de diluir ou enfraquecer o máximo possível essa idéia.
O sentimento emerge do corpo e é neste que ele se situa. A justaposição de uma imagem do corpo associada a “algo mais” constitui o sentimento, não como uma “união substancial”, mas como combinação entre elementos cujas bases são comuns a ambos, ou seja, o próprio corpo.
Ao pensarmos na idéia de corpo, isto é, em emoções e sentimentos, somos levados quase que inevitavelmente a retomar uma antiga questão que desde os tempos de Willian James incomodava as neurociências: Fugimos porque sentimos medo ou sentimos medo porque fugimos?
Na concepção de James são as reações fisiológicas que produzem sentimentos. Se tomarmos como exemplo as emoções envolvidas durante a ação de fuga, perceberemos que algumas reações fisiológicas são observáveis por outros enquanto que outras são sentidas somente pelo sujeito que vivencia aquela situação: aumento da pressão sangüínea, taquicardia, midríase, contrações musculares e gastrintestinais. As respostas fisiológicas retornam ao cérebro por meio de uma sensação física, a fim de que um padrão único de feedback sensorial permita com que cada tipo de emoção tenha uma qualidade específica. Para melhor compreender a idéia das reações fisiológicas que provocam sentimentos, Damásio irá cunhar uma subespécie de sensações, a saber, o conceito de “sentimento de fundo.”
Damásio (1996) acredita que as emoções de fundo originam-se em estados corporais de “fundo” e não em estados emocionais. Ela é a imagem do corpo quando este se encontra em repouso, isto é, quando não está agitado pelas emoções.
As sensações de fundo acontecem de maneira contínua, embora não possamos perceber a cada momento o que ocorre em nosso corpo. Não obstante, é por meio dessas sensações que somos capazes de respondemos a questão: “como se sente”? Damásio nos lembra que este tipo de pergunta não se refere apenas ao modo como estamos levando a vida, nossas atividades diárias, etc. Ao darmos uma resposta fazemos menção ao nosso próprio estado corporal. Por exemplo, como nos comportaríamos se de repente, ao dirigirmos essa pergunta a uma pessoa, ela nada soubesse sobre como se sente?
Alguns doentes acometidos por anosognosia prototípica perderam por completo a noção de seu estado de saúde. Pelo fato de desconhecerem suas atuais debilidades, negam que estejam doentes. Com efeito, nos afirma Damásio (1996, p. 184):
Não reconhecem que estão paralisados, mesmo quando percebem que não mexem os ombros, por exemplo, ao serem confrontados com a realidade e obrigados a ver a imobilidade da mão e do braço esquerdo [...] Suas manifestações emocionais são limitadas ou inexistentes os sentimentos – por sua própria verificação ou por interferência de um observador - são igualmente nulas.
Pacientes anosognósicos com comprometimento cerebral, seja por uma lesão ou por ter um tumor, apresentam falhas de intercomunicação entre regiões responsáveis pelo mapeamento do corpo. Os estudos, incluindo as pesquisas por Damásio e sua equipe, confirmaram que a maioria dessas regiões situa-se no hemisfério direito, não excluindo o esquerdo. Algumas regiões mantêm um vínculo muito estreito de comunicação e se localizam na ínsula, no lobo parietal e na substância branca. Além do mais, encontramos ligações significativas entre tálamo, córtex frontal e gânglios basais.
Para Damásio (1996), doentes com anosognosia apreendem de modo insuficiente as informações relativas ao seu estado corporal, ou seja, não há uma atualização das próprias representações corporais.
Sendo assim, para essas pessoas a capacidade de reconhecimento imediato e automático dos estados corporais fica comprometida. Embora sejam capazes de formar uma imagem de como eram seus corpos, essa imagem agora se apresenta desatualizada. Essa é a justificativa que eles utilizam para dizer que estão saudáveis, não obstante os sinais visíveis da doença.
Pesquisas envolvendo pacientes anosognósicos nos apontam um caminho interessante no que se refere aos estados mentais. Ao que tudo indica, eles nos apresentam a idéia de uma mente privada da possibilidade de situar-se no presente do seu estado corporal. Damásio (1996) levanta a hipótese de um “eu desintegrado”, ou seja, apesar do conhecimento da identidade pessoal estar preservada e isso pode se notar por intermédio de suas afirmações: “eu sei quem sou e onde estou”, se perguntasse as elas como se sentem após uma delicada cirurgia dirão que não estão doentes, mas que se sentem muito bem. Nas palavras de Damásio, pode-se observar o quão desatualizado se encontram as informações: “A teoria que esses doentes criaram acerca de suas mentes e das mentes dos outros encontra-se em estado deplorável, irrevogavelmente desatualizada e defasada da época histórica em que eles e seus observadores se encontram.” (DAMÁSIO, 1996, p.185). Embora o meio em que vivemos se apresente em constante mudança bem como as imagens que dele temos, nossa identidade pessoal se caracteriza por assumir uma regularidade em meio à irregularidade. Desse modo, a continuidade dos sentimentos de fundo se refere à própria continuidade do organismo vivo, uma vez que esses sentimentos fazem menção ao próprio estado corporal do organismo.
4 As drogas da felicidade
Pelo que podemos observar até o presente momento, tanto as emoções quanto os sentimentos, incluindo também os sentimentos de fundo, encontram-se alicerçados na idéia que temos de organismo vivo. Assim, duas questões se colocam contundentemente à nossa investigação: quais seriam os processos neurais envolvidos no “sentir” de um estado emocional ou de uma sensação de fundo? Seriam os processos neurais, condição necessária e suficiente para se sentir uma emoção ou um sentimento de fundo?
Muitas respostas foram aventadas no sentido de uma busca “desenfreada” por encontrar substâncias neuroquímicas capazes de explicar as emoções (as indústrias de psicofármacos que o digam). Contudo, a descoberta de tais substâncias que alteram comportamentos emocionais não é suficientemente capaz de explicar o que sentimos. Uma coisa é sabermos que certos tipos de substâncias químicas podem provocar determinados tipos de sentimentos ou emoções e outra bem diferente é conhecer os mecanismos pelos quais se consegue alterar as emoções ou os sentimentos.
Em outras palavras, podemos saber que há substâncias que atuam em determinados neurônios, circuitos e receptores, porém toda essa “maquinaria neural” não nos possibilita responder a questão do porque nos sentimos tristes ou alegres. Para Damásio (1996), o máximo que conseguimos fazer é estabelecer uma relação de causa e efeito entre substâncias e sensações, mas não podemos explicar qualitativamente como se dá a passagem de um nível a outro.
Não estamos tentando ressuscitar a idéia de um homúnculo que represente no “teatro cartesiano” da mente essa passagem. Acreditamos que além de uma explicação causal há elementos cognitivos indispensáveis na compreensão da emergência de um sentimento. Esses elementos cognitivos também requerem a presença de substâncias químicas, uma vez que essas estruturas não são etéreas ou diáfanas, mas não se reduzem as explicações neuroquímicas. Um exemplo clássico que podemos tomar é o caso da depressão. Em quadros depressivos algumas funções cognitivas e afetivas ficam comprometidas, porém não podemos por essa razão explicar esta situação somente a partir de uma diminuição de serotonina ou dopamina ou qualquer outro neurotransmissor.
Outra “tentação” que muitos neurocientistas caem é de tentar explicar o sentimento somente a partir do dado biológico. Não nos é suficiente explicar quais são os neurotransmissores envolvidos no processo de sentir. Precisamos compreender de que modo às representações corporais se tornam subjetivas.
Na concepção de Damásio (1996), para podermos ter algum tipo de sentimento em relação a uma pessoa ou acontecimento, o cérebro precisa encontrar um meio de representar causalmente a pessoa ou o acontecimento ao estado do corpo de modo coerente.
Entre os sinais do corpo e o objeto causativo da emoção existem zonas de convergência que recebem sinais da atividade cerebral que assinala uma determinada entidade, de maneira a mapear tanto os córtices sensoriais iniciais quanto da atividade cerebral que assinala as alterações corporais. Para Damásio (1996), as zonas de convergência são capazes de receber sinais desses dois lugares, graças às ligações neurais de feedforward . “Essa representação intermediária preserva a ordem de início da atividade cerebral e, além disso, mantém a atividade e atenção por meio de conexões de feedback dirigidas para os dois locais iniciais.” (DAMÁSIO, 1996, p.193).
Há um verdadeiro equilíbrio na troca de sinais entre essas três estruturas, de forma que o organismo consegue sentir-se no processo da emoção.
Embora haja estruturas corticais envolvidas neste processo, não podemos deixar de mencionar a relação entre estruturas subcorticais, de modo especial as do tálamo. Não obstante a toda essa explicação, os conteúdos emocionais, ou em uma linguagem chalmersiana, a sensação da experiência está intrinsecamente relacionada à consciência.
Sendo assim, acreditamos que se faz necessário compreendermos mais a fundo os mecanismos subjacentes a cada um dos elementos.
De acordo com Pereira (2003, p. 116):
Embora uma seção sobre emoções estivesse presente em muitas coletâneas de estudos neurocientificos desde os anos sessenta , sua abordagem quase sempre se resumia a identificação das áreas cerebrais e mecanismos bioquímicos envolvidos. Uma adequada conceptualização dos fenômenos envolvidos é tarefa difícil, e a compreensão das correlações entre base neural de emoção e sua fenomenologia ainda é uma área incipiente na neurociência afetiva e áreas afins (como a neuropsicofarmacologia e a psiquiatria biológica).
Como podemos observar as emoções e os sentimentos não devem ser vistos como entidades metafísicas ou desencarnadas do corpo, mas requerem um estudo aprofundado dos mecanismos biológicos envolvidos, bem como uma análise séria de sua fenomenologia, vista aqui não como substância imaterial ou etérea, mas como entidades relacionadas ao organismo vivo.
Referências
CHALMERS, D. J. Facing Up to the Problem of Consciousness. Journal of Consciousness Studies, Australia, v.2, n. 3, p. 200-19, 1995.
______. O enigma da consciência. Scientific Amerícan, Edição Especial: segredos da mente n. 4, [2004].
DAMÁSIO, A. O Erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia da Letras, 1996.
______. O Mistério da Consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si. Tradução de Lauro Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
______. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. Adaptação para o português do Brasil Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2004a.
ECCLES, C J. Cérebro e Consciência: o self e o cérebro. Tradução de Ana André. Lisboa: Instituto Piaget, 1994.
PEREIRA, JR., A. Uma abordagem naturalista da consciência humana. Trans-form-ação, São Paulo: UNESP, v. 26, n. 2, p. 109-141, ano 2005.
terça-feira, 13 de abril de 2010
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