terça-feira, 13 de abril de 2010

sentimento

O

O sentimento do sentimento do que nos
SENTIMENTO



acontece: a consciência em Damásio



NOS


ACONTECE...

O mistério da consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de

si de António Damásio (trad. Laura T. Motta; revisão técnica Luiz H.M.

Castro). São Paulo: Companhia das Letras, 2000, 474 pp.

Resumo O texto a seguir apresenta em linhas gerais a concepção de consciência de António
Damásio desenvolvida em seu livro The Feeling of What Happens – body and emotion

in the making of consciouness. Nele, o autor, baseado em sua experiência como médico

e neurocientista, sugere que a consciência é um sentimento de si gerado pelo relato

não-verbal resultante da percepção concomitante das alterações orgânicas e do objeto


que as provoca.

Ao contrário do que poderia parecer para alguns precipitados, longe estamos do


fim da ciência, da arte, da história ou de qualquer outra atividade humana individual


ou social. Na ciência, em particular, questões cruciais permanecem em aberto, novas


descobertas e invenções podem a qualquer momento abalar nosso conhecimento
sedimentado e alguns temas continuam gerando acaloradas e polêmicas discussões.

Um desses temas ou questões que ainda não recebeu resposta adequada, e para

alguns nem estatuto científico, é a consciência. Como e por que ela surgiu? Qual

sua natureza ontológica? Quais suas propriedades? O que a sustenta? Cientistas
cognitivos, filósofos, neurofisiologistas seguem correndo contra o tempo, e uns con-

tra os outros, na busca de soluções consistentes para essa e outras perguntas.

Uma tentativa recente de enfrentar esse espinhoso e escorregadio campo pro-
blemático partiu de um dos mais respeitados e famosos neurocientistas da atuali-

dade, o português radicado nos Estados Unidos António Damásio. O mistério da

consciência, tradução brasileira do original inglês The feeling of what happens –

body and emotion in the making of consciousness, é um extraordinário esforço

por compreender o fenômeno da consciência a partir de estudos neuropsicológicos,


neurofisiológicos e neuroanatômicos. Nele, Damásio expõe com clareza e elegância


sua concepção pessoal do que é consciência, desenvolvida ao longo de anos de pes-

quisa experimental, curiosidade filosófica e tratamento de pacientes com os mais
variados tipos de dano neurológico.

Para começar, Damásio esclarece que há dois tipos distintos de problemas en-


volvendo a consciência. O primeiro investiga como o cérebro, no organismo huma-

no, é capaz de transformar um padrão neural (ou objeto) em um padrão mental (ou

imagem). Dito de outro modo, como surge a narrativa ou filme multi-sensorial que


caracteriza nossos estados mentais. Objeto, aqui, é a designação geral para coisas


tão variadas como um rosto, uma música, uma dor de barriga ou uma experiência

estética; imagem é um padrão mental em qualquer modalidade sensorial, como,

abril 2003

por exemplo, uma imagem sonora, uma imagem tátil, a imagem de um estado de


bem estar.




Da perspectiva da neurobiologia, resolver esse primeiro problema é descobrir como o cérebro

n. 5
produz padrões neurais em seus circuitos de células nervosas e como ele consegue converter esses


padrões neurais nos padrões mentais explícitos que constituem o nível mais elevado do fenômeno

biológico, o qual designo por imagens (p. 25).


galáxia


Para Damásio, responder a esse problema significa também enfrentar a ques-

tão filosófica dos qualia, as qualidades sensórias simples encontradas nos objetos,


294
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e, para ele, ainda que um dia a neurobiologia possa explicá-los, neste momento a
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explicação que ela oferece ainda é incompleta e lacunar.


O segundo problema da consciência investiga como, concomitantemente ao


engendramento de padrões mentais (imagens) para um objeto, o cérebro também

faz emergir um sentido do self 1 no ato de conhecer. Como o corpo cria a sensação

DO

de um eu implicado em cada um de seus estados mentais. O que o autor está suge-

SENTIMENTO

rindo é que uma coisa é compreender como objetos se tornam imagens, e outra é


compreender como conhecemos que existe um self ao qual estas imagens estão

relacionadas. Usando a metáfora do filme no cérebro, podemos dizer que há um


conjunto de padrões neurais que cria uma sucessiva e quase ininterrupta narrativa

DO

sem palavras – desde a hora em que acordamos até o momento em que adormece-

QUE

mos, e também durante o sono REM no qual sonhamos – responsável pela sensação

de si mesmo que cada um tem à qual vem modificar todas as outras narrativas

NOS

representadas pelos objetos por nós percebidos. São filmes dentro do filme. Mesmo

ACONTECE...

que não tenhamos “consciência” do sentido do self implicado em cada uma das

imagens sensoriais percebidas e evocadas, ele está ali o tempo todo dizendo que


somos nós que estamos criando essas imagens e não outros.




Resolver o segundo problema da consciência consiste em descobrir os alicerces biológicos da

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curiosa capacidade que nós, humanos, possuímos de construir não só os padrões mentais de um


objeto – as imagens de pessoas, lugares, melodias e de suas relações; em suma, as imagens mentais,

integradas no tempo e no espaço, de algo a ser conhecido –, mas também os padrões mentais que


transmitem, de maneira automática e natural, o sentido de um self no ato de conhecer (p. 27).



Em seguida, Damásio esclarece que a divisão da questão da consciência em dois


problemas responde a uma necessidade metodológica e que no fundo ambos estão

intimamente relacionados. Em suma, diz o autor, a consciência, de seus níveis ele-

galáxia

mentares aos mais complexos, é o padrão mental unificado que reúne o objeto e o


self, é um fenômeno que ocorre como parte do processo privado de primeira pes-


soa que denominamos mente.

O mistério da consciência tenta responder ao segundo problema da consciên-


n. 5
cia, o problema do self. Mesmo admitindo não tê-lo exatamente solucionado e acre-


ditando que no atual estágio da neurociência e da ciência cognitiva é ainda duvi-


abril 2003


1
Aqui cabe uma explicação. A tradução nacional evitou verter o vocábulo self e manteve-o como no

original em inglês por sugestão do próprio autor. Como explica nota do revisor da tradução, em


português (e nas línguas neolatinas) não existe uma palavra que traduza com exatidão o conceito

de self apresentado no livro.

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293-299
dosa a idéia de resolvê-lo, Damásio passa então a descrever sua hipótese do que é a


consciência em termos mentais e como esta pode ser construída no cérebro huma-


no. Para tanto, recupera a distinção entre emoção e sentimento avançada em seu


livro anterior O erro de Descartes (Damásio 1996). Para o autor, a consciência é
BISPO

evolutivamente posterior e intimamente dependente dessas duas outras proprie-


dades do organismo humano. De modo inusitado e heterodoxo, Damásio recupera

RONALDO

a concepção desacreditada de William James e define emoção como o conjunto de


reações orgânicas, a maior parte delas publicamente observáveis, ou o conjunto

complexo de reações químicas e neurais em face da percepção de um objeto exter-


no ou interno. Emoções, portanto, são observáveis do ponto de visa de uma terceira


pessoa (expressão facial, ritmo dos movimentos do corpo) e são quantificáveis

(batimento cardíaco, sudorese, etc.). Paralelamente, sentimentos são resultados da


percepção dessa mudança na paisagem corporal e são acessíveis apenas na pers-


pectiva de primeira pessoa. Sentir uma emoção consiste em ter imagens mentais


originadas em padrões neurais representativos das mudanças no corpo e no cére-

bro que compõem uma emoção. A consciência surgiria como um sentimento do


sentimento. A seqüência então seria: um objeto é percebido pelo organismo, essa


percepção ativa circuitos cerebrais e esses estimulam mudanças no funcionamento


do corpo (emoção); essa ativação e essas mudanças são percebidas por outros cir-

cuitos cerebrais (sentimento); um padrão neuronal de segunda ordem tem lugar


reunindo a percepção do objeto percebido inicialmente e a percepção das mudan-


ças na paisagem corporal (consciência). A maior dificuldade enfrentada por Damásio

é provar que essas são, de fato, três propriedades distintas e não-coincidentes. Boa


parte do livro é dedicada a isso. Inúmeros exemplos de pacientes com danos cere-


brais demonstram a relativa independência desses três estágios da percepção cons-


ciente. Há aqueles que se emocionam, mas não sentem sua emoção; há outros que

se emocionam, sentem sua emoção, mas não sabem que o que estão sentindo está

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relacionado ao seu self.


Detalhando mais minuciosamente os vários estágios que constituem o fenô-


meno da consciência humana, Damásio introduz uma série de novas propriedades.

A primeira é o proto-self. Damásio afirma que o sentido do self possui um prece-


n. 5
dente biológico pré-consciente. O proto-self seria um conjunto coerente de pa-


drões neurais que mapeiam, a cada momento, o estado da estrutura física do orga-


nismo nas suas numerosas dimensões. Não somos conscientes do proto-self. Um

galáxia
exemplo de proto-self poderia ser o padrão neural formado pelo funcionamento


sadio do fígado de um indivíduo. Em uma situação habitual, não temos consciência


da existência de nosso fígado e, no entanto, seu funcionamento está permanente-

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mente sendo mapeado e enviado ao cérebro. É precisamente uma mudança signifi-
SENTIMENTO

cativa do estado do proto-self que faz surgir uma outra propriedade denominada


por Damásio de self central. Ele explica que a essência biológica do self central é a


representação, em um mapa de segunda ordem, do proto-self sendo modificado. O

self central é caracterizado ainda como o protagonista transitório da consciência

DO

gerado por qualquer objeto que acione o mecanismo da “consciência central”.

SENTIMENTO

Damásio fornece uma definição não muito distinta de “consciência central” e


freqüentemente somos levados a tomá-la como sinônimo de self central. A “cons-

ciência central” ocorre quando os mecanismos cerebrais de representação geram


um relato imagético, não-verbal, de como o estado do organismo é afetado pelo

DO

processamento de um objeto por esse mesmo organismo, e quando esse processo

QUE

realça a imagem do objeto causativo, destacando-o assim em um contexto espacial

e temporal.

NOS


ACONTECE...

A consciência central é gerada de modo pulsante, para cada conteúdo do qual devemos estar


conscientes. Ela é o conhecimento que se materializa quando alguém se vê diante de um objeto,

construindo um padrão neural para ele e descobrindo automaticamente que a imagem do objeto


agora realçada é formada de sua perspectiva, que lhe pertence (p. 167).



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Voltando ao self central, Damásio esclarece que este pode ser acionado por

qualquer objeto, que o mecanismo de sua produção sofre mudanças mínimas no

decorrer de toda vida e que devido à permanente disponibilidade de objetos acio-

nadores ele é gerado continuamente, parecendo contínuo no tempo.

Em resumo:

arriscaríamos dizer que a “consciência central” seria a imagem mental e o self cen-


tral o padrão neural do conjunto resultante do processamento concomitante do


organismo e de um objeto realçado que o modifica em um determinado momento.

galáxia
O que é o mesmo que dizer que a percepção imagética do self central redunda na


“consciência central”. Um sentimento e um relato de segunda ordem, portanto.


As três outras novas propriedades que complementam o quadro da consciência


levantado pelo autor são: memória autobiográfica, self autobiográfico e consciên-

cia ampliada. A memória autobiográfica é constituída por memórias implícitas de

n. 5

múltiplos exemplos de experiência individual do passado vivido e do futuro antevisto

e tem como base os aspectos invariáveis da biografia de um indivíduo. Ela cresce

continuamente com a experiência de vida e pode ser parcialmente remodelada para
refletir novas experiências. Baseado na memória autobiográfica, o self autobiográ-

fico é organizado em registros permanentes, mas dispositivos de experiência do self

central. Esses registros dispositivos podem ser ativados como padrões neurais e

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293-299
transformados em imagens explícitas sempre que necessário. O self autobiográfico


requer a presença de um self central para iniciar seu desenvolvimento gradual, as-


sim como requer o mecanismo da consciência central para a ativação de suas me-


mórias. Cada memória reativada opera como um “algo a ser conhecido” e gera seu
BISPO

próprio pulso de consciência central. O resultado é o self autobiográfico do qual


somos conscientes.

RONALDO

Finalmente, a consciência ampliada é caracterizada por Damásio como o está-

gio mais evoluído da experiência consciente. Ela vai além do aqui e agora da cons-

ciência central e nos dá a visão de conjunto da nossa vida individual e particular. A

consciência ampliada é resultado do conjunto de memórias registradas por cada

pulso de consciência central e exige uma memória operacional para reter por um

certo tempo as imagens recuperadas. Nela, o sentido do self surge na exibição con-


sistente e reiterada de algumas de nossas memórias pessoais, os objetos de nosso


passado pessoal, aqueles que podem facilmente dar substância a nossa identidade,


momento a momento.

A consciência é, assim, tanto em seu modo central como ampliado, um senti-


mento de algo a ser conhecido, um fenômeno mental sustentado por circuitos e

sistemas neurofisiológicos que garantem ao indivíduo um sentido do self complexo

e duradouro.

Curioso perceber que, segundo a concepção de Damásio, os mecanismos que

engendram a consciência são relativamente distintos e independentes dos meca-

nismos responsáveis pela construção de outras de nossas funções mentais superio-

res, tais como visão, audição, inteligência, memória, linguagem verbal. Pacientes

com danos neurológicos demonstram a capacidade que o corpo pode ter de conti-


nuar fazendo mapas coerentes de um objeto percebido externamente mesmo não


mais sendo capaz de criar um saber de que está vendo algo.

Damásio detalha ainda as estruturas e áreas cerebrais envolvidas em cada uma
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das propriedades sugeridas, descreve inúmeras evidências para cada uma de suas

proposições, mas ainda assim sabe que se tratam apenas de hipóteses, que ainda


não é possível bater o martelo quanto a veracidade das mesmas. Mesmo não tendo

exatamente resolvido o problema da consciência, Damásio parece ter dado um pas-


n. 5
so importantíssimo nessa direção. Seu rigor científico, sua experiência profissional


colocam-no em patamar privilegiado para o desvendamento dessa problemática


complexa, na linha de frente representada pela neurofisiologia. Outros especialis-

galáxia
tas devem ser chamados a contribuir – filósofos, cientistas cognitivos, semioticistas


–, e dessa frente ampla podemos esperar melhores resultados.


Mais especificamente duas questões permanecem sem explicação. A primeira,

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referida no início dessa resenha, é como exatamente um padrão neural é converti-
SENTIMENTO

do em um padrão mental? Como obtemos a qualidade que experimentamos em


nossas sensações? A outra, diretamente ligada a anterior e mais ainda às preocupa-


ções de Damásio, diz respeito à compreensão da natureza íntima dos sentimentos.

Que um sentimento seja a percepção de uma emoção pode parecer razoável, mas

DO

de que são feitos exatamente os sentimentos, da percepção precisa de que eles

SENTIMENTO

emergem? Quais os diferentes correlatos orgânicos para sentimentos tão próximos


quanto respeito, admiração ou reverência?

A consciência parece ser assim. De tão íntima, tão próxima, e também por ter-


mos que usá-la ao mesmo tempo como instrumento e objeto de conhecimento, sua

DO

explicação e compreensão surgem e desaparecem intermitentemente. Caso o leitor

QUE

termine o livro com a sensação de que não é capaz de reter por muito tempo a idéia

de consciência proposta pelo autor, não se preocupe, retome a argumentação, con-

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centre-se em seus estados mentais e ela retornará – brevemente.

ACONTECE...

Finalmente, para aqueles que ainda estranham o comentário crítico sobre os

avanços em ciências cognitivas em geral no contexto de uma revista de comuni-


cação, semiótica e cultura, lembramos que é precisamente a consciência que nos


permite saber o que sentimos e o que conhecemos, e só através de sua compreen-


são, levada a cabo por aquelas ciências, poderemos nos comunicar cada vez mais

293-299
e melhor.






REFERÊNCIA



Damásio, António R. (1996). O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Com-

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